Pilotos após a missão  ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA

  
(Estória 87)

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(87-1) Eles...
(87-2) Amigos caçadores
(87-3) A bela de Butiá"

 

   

 Eles...
(Estória 87-1)

 Eu os vi, eu estava lá, e convivi com todos...

- NERO: Comandante ou fenômeno sociológico? Liderou 461 homens totalmente diferentes entre si e todos voluntários dispostos ao grande sacrifício... e os trouxe de volta. Com glória!

- PAMPLONA: perfeito Nº. 2: jamais mencionado, eternamente presente. Era a parte equilibrada da alma do Patrono... Para os íntimos: PINDUCA...

- LAGARES: Piloto de escol. O melhor, o mais “finesse”. Certeza de sucesso na missão...

- WANDERLEY: Príncipe dos ares, cérebro de General combatente.

Voou como Tenente, completando as faltas de efetivo...

- FORTUNATO: um artista e sonhador. Empunhava pincéis e metralhadoras .50 com destreza. Ás vezes, incompreendido...

- HORÁCIO: “cavalinho” para a “baixa canalha”... “Fera” para colocar a Unidade em forma e dar exemplos... Cérebro privilegiado. Organizador.

- KOPP: alemão tranquilo, nunca se exasperou. Liderava naturalmente... Marcava posição pelo silêncio inteligente...

- PESSOA RAMOS: “o pato”. Líder porque liderava... E esbravejava muito... e sempre

- BUYERS: peça mestra. Tão “moita” que nem se percebia que estava lá... Mas estava...

- ASSIS: Comandante de Esquadrão inimitável. Feições duras, coração afável, alma nobre... Criou “bombas incendiárias” que funcionavam e faziam o “show” em 22 Abr...-MIRANDA CORREIA: pensador, criterioso. Não voou para que outros o fizessem...

- MOTTA PAES: “moita” e garantia certa de sucesso. “Pau de amarrar cerca”... honestidade garantida, sofrimento vivido... Piloto de MIRAGE IIIE como General de 3 estrelas...- PERDIGÃO: cerebral. Brilho eterno. Sorriso cativante, eficiente. Era único... Boa letra...

- CORREIA NETTO: “serião”. Mantinha distância e impunha respeito pelo que valia. Sofrido, tranquilo, “paizão”...- BRANDINI: “cuca de metal”. “Mickey Rooney” e baixinho aceso. Quando esquentava a placa, sai da frente!

- DORNELLES: fera bravia. Intimorato. Nada o assustava: nem mesmo a morte, que nunca soube que existia!- TORRES: “peça mestra”. Ala do Chefe. Eterno amigo. Jamais pifou... Equilibrado e plurivalente: cem missões!

- LAFAYETTE aprendeu a fazer acrobacia para ir para a Itália. Imponente, sério. Comandou a BASC duas vezes.- KELLER: “the killer”. Comandante perfeito do SEGUNDÃO. Parâmetro de conjugação... Mestre dos Mestres. Frio (?), porém sensível... Cria da Tia Cande, mãe de LIMATÃO...

- LIMA MENDES: perfeccionista. Só aceitava os melhores. Pagou o preço muito cedo. Fez falta... e ainda o faz. “Rompia o mato” de K25 e no C5! Fincou o LIMATÃO, no meio da areia e do barro, com as próprias mãos...

- GOULART: Comandante idolatrado. Levava a tropa ao seu destino, sempre com um sorriso afável. Elegante, sofisticado, um “grande senhor”...- MENEZES (Res Conv): “cigarrinho de palha” na orelha e fogo no coração... Deixou saudades... e um stand de tiro com seu nome.

- TORMIN: pilotaço padrão. Dava lições de “cumprimento de missão”. Deu a vida para ensinar aos outros...

  
CÓDIGOS de OUTRORA
    
  
- PACAU (código): “um jogo que se joga com a b......... para não gastar o p.................” (Lima Mendes)
- PINGUIM: codinome do “anacreonte”, antes do ESPC
- GLÚ-GLÚ: aquele que sempre pifava missão na cabeceira da pista... 

  

Lauro Ney Menezes- Maj. Brig do Ar
Piloto de Caça - Turma de 1948


   Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(87-1) Eles...
(87-2) Amigos caçadores
(87-3) A bela de Butiá" 
 

 AMIGOS CAÇADORES
(Estória 87-2)
Cel.Tacariju recebendo a medalha Nero Moura

  À la chasse!

Prezados amigos

 

Estava em casa, lendo placidamente um livro sobre Psicologia, quando recebi um telefonema da Base de Santa Cruz dando-me conta que, no dia 22 de abril, receberia a Medalha Nero Moura (Mérito Operacional). Ao desligar o telefone, a emoção subiu-me aos olhos e chorei um choro de saudade.

Cel.Tacariju e seu Xavante AT-26Naquele dia, estaria na companhia dos Veteranos e de outros ex-Comandantes da Caça, já agraciados, com os quais aprendi a ser combatente. Naquele momento, a memória me levou ao Ayres (falecido), que me ensinou os primeiros passos como caçador; ao Raposo (falecido), Comandante de Copas, que completou a tarefa do Ayres; ao Frota, Comandante do Esquadrão, que me ensinou teoria e prática do voo na ala, ao Celestino, Operações do Esquadrão, que me ensinou a não me perder numa viagem; além do Blower, Paulo Pinto, Vilaça, Euclides, Fleury (falecido), Carlos, e outros que se escondem na minha memória.

Lembrei-me do “Barrinhos”, que me levou à EMBRAER, para voar os primeiros Xavantes chegados da Itália; lembrei-me do “Bob Dowling” (falecido) que me ensinou a voar supersônico no 425th da USAF; lembrei-me do Bellon,que me ensinou as artimanhas do combate em avião supersônico; lembrei-me do Castro Paz (falecido), do Queiroz (falecido), do Euclides, do Blower, do Ary, que me ensinaram os segredos do Mirage. Lembrei-me dos últimos voos no 3/10, na véspera de me “aposentar” com dores na coluna.

Depois da última lágrima, telefonei para meu filho e senti seu orgulho, sua felicidade junto com a minha. Não podia deixar de contar esta história para vocês, o “Conselho dos Anciãos”.

Abraços.

  

Tacarijú Thomé de Paula Filho – Cel.Av. R1
Piloto de Caça - Turma de 1967 


Este fascículo contém 3 (três) estórias:
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(87-2) Amigos caçadores
(87-3) A bela de Butiá" 
 

 A BELA DE BUTIÁ
(Estória 87-3)

 

As duas garrafas de scotch, derrubadas no happy hour de encerramento da Manobra Sulex, um exercício militar de duas semanas em que o 1º. Grupo de Caça simulava a defesa do sul do país a partir de Porto Alegre, não foram suficientes para que eu me animasse naquela estrelada noite de junho no Gruta Azul, tradicional casa de shows e strip-teases da Avenida Farrapos.

Mãozinha, Turco, Marechal e a maior parte dos pilotos do Grupo, por outro lado, deliciavam-se com a canastrona performance da sensual Tuhanny Scalabrinni, que desfilava entre caras e bocas uma previsível sequência de dublagens de Fafá de Belém, nas mais imorredouras trilhas sonoras de zona....

Quando, atendendo a um pedido do maitre e nosso cúmplice, Tuhanny veio se juntar a nosso grupo e Mãozinha comandou a “melhor garrafa de champanhe francesa da casa”, achei que era hora de respirar a suave aração da noite.

Ao anoitecer a Avenida Farrapos, mergulhada na luz amarelada de vapor metálico, exibe um incrível ar fantasmagórico onde pontificam inúmeros mendigos, que no sul aparentam certa dignidade, vestidos com sobretudos e luvas, e conversando em animadas rodas de chimarrão.

De repente, não sei se devido ao magnífico céu austral, cravejado de estrelas, onde reina inconteste o Cruzeiro do Sul, ou talvez tenha sido o gélido zéfiro noturno que sopra vindo do rio Guaíba, as lembranças vieram subitamente em cascata, trasladando-me bruscamente uma década em direção ao passado.

Orgulhosos pilotos de caça recém formados em Fortaleza, a “Sorbonne da Caça Brasileira”, eu e Grosso havíamos combinado o horário para nossa apresentação no 1º/14º Gav., o “Caça de Canoas”, esquadrão tradicionalíssimo, defensor da fronteira sul e herdeiro das tradições dos pilotos de P-40, o famoso “Tigre Voador”.

O menor de todos os esquadrões de caça do Brasil, o “catorze”, como era chamado pelo gauchal, possuía dezoito pilotos e mais de vinte aeronaves Tiger F5E estalando de novas e projetando da linha de voo suas agressivas silhuetas em meio a mais um dia de cerração, atípica naquele início de ano.Comandado pelo coronel Thompson, figura lendária da aviação de caça nacional e um exímio esportista que liderava no ar e no solo, o esquadrão era também o feudo do capitão Cartier, brilhante planejador e seguramente o melhor piloto da casa.

Servindo em Canoas há mais de oito anos, Cartier era o cérebro por trás de tudo e era ainda considerado por todos, do soldado mais simples ao próprio comandante, como o verdadeiro dono do esquadrão.

Após a ritualística de chegada, eu e Grosso fomos entronizados naquela confraria, diretamente no briefing matinal, onde o Major Dino fazia uma preleção sobe a incompatibilidade da boemia com o voo de combate, que na verdade era dirigida ao capitão Rolet, habitué das melhores casas noturnas da cidade, onde era conhecido como “Sinatra”.

Ao final do briefing, o coronel Thompson, para espanto geral, mandou que adentrasse o recinto um velho sargento da seção de armamento, com duas enormes caixas contendo reluzentes espingardas cartucheiras.Diante da surpresa de todos, fez breve alocução sobre a quantidade de quero-queros, pássaros cantados e decantados na tradição gaúcha, ao longo da pista de pouso, que representavam sem dúvida um alto risco de acidentes aéreos. Bastando para isso que fossem engolidos pelos possantes motores do F5E durante a decolagem.

“Correndo ao longo da pista”, explicava em seu vozeirão, “cheguei à conclusão de que só há uma solução para essa praga: é chumbo neles!”.

Dito isso, dividiu o grupo de pilotos em quatro “esquadrilhas” e distribuiu as armas para que passássemos nossa primeira manhã no catorze em meio a um arriscado tiroteio no meio do capim alto. Pelo menos ao final, tudo em Canoas acabava em churrasco...

De outra feita, Thompson cismou em nos fazer rastejar no estande, enquanto ele e um conformado Dino descarregavam suas pistolas por sobre nossas cabeças.

“Quando forem abatidos na Argentina e tiverem que abrir caminho de volta ao Brasil na porrada, por certo me agradecerão!” dizia, cinco decibéis acima do normal.

Sua voz altíssima era um espetáculo à parte.Numa das vezes em que deslocados para a Base de Santa Maria, aproveitávamos a noite na boate local, no meio de um daqueles silêncios que a orquestra faz ao final de uma seção musical, ouviu-se em todo o salão seu inconfundível timbre numa das mesas do fundo: “muito prazer, meu nome é Gerson e sou representante de uma fábrica de vasos sanitários”. Isso dito a guisa de introdução a um grupo de moças do lugar.

No dia a dia, todos eram constantemente pressionados por Cartier, que parecia dormir com o traje de voo...

Sua presença era sentida em todo o esquadrão. Até o próprio Thompson não escapava das cobranças de Cartier.

Numa das vezes em que deslocados para a Base de Santa Maria, aproveitávamos a noite na boate local, no meio de um daqueles silêncios que a orquestra faz ao final de uma seção musical, ouviu-se em todo o salão seu inconfundível timbre numa das mesas do fundo: “muito prazer, meu nome é Gerson e sou representante de uma fábrica de vasos sanitários”. Isso dito a guisa de introdução a um grupo de moças do lugar.

No dia a dia, todos eram constantemente pressionados por Cartier, que parecia dormir com o traje de voo...Sua presença era sentida em todo o esquadrão. Até o próprio Thompson não escapava das cobranças de Cartier.

Numa das vezes em que interpelado por Cartier no corredor informei que o comandante havia cancelado nosso voo devido às péssimas condições meteorológicas, ele, Cartier, agarrou-me pelo braço e praticamente invadiu a sala do comando sem sequer bater à porta.Thompson, recém-chegado de uma solenidade militar, ainda envergava a túnica azul do 5° A, o uniforme cerimonial, e sentou-se rapidamente em sua escrivaninha, olhando firme para Cartier que já começava sua ladainha.

“Coronel, o senhor sabe que não podemos atrasar mais o programa de instrução!”.

“Agora não, Cartier!”, lançou Thompson com impaciência.

“Mas coronel, isso também não é bom para a formação desses meninos. Eles precisam se acostumar com o mau tempo!”, continuou Cartier.“Agora não, Cartier!”, repetiu o comandante ainda sentado à escrivaninha.“Como responsável pela escala, eu sugiro que o senhor faça o voo do jeito que o tempo está!”

“Agora não Cartier!”, gritou Thompson levantando-se, trajado solenemente da cintura para cima, no entanto completamente despido na parte de baixo. “Eu ia dar uma cagada, quando você entrou!

”Naquele ano, empurrados por Cartier em sua sanha operacional, eu e Grosso voamos o dobro do número de horas voado por qualquer piloto de caça no Brasil.

Excelente piloto, Cartier ensinou-me muito sobre aviação de caça. E como os aviões do catorze eram todos monoplace, esses ensinamentos eram em sua maior parte transmitidos no solo, para que cada um por sua conta e risco executasse nos céus.

Uma das manobras de que eu mais gostava era o “zoom supersônico”, desenvolvido pelos pilotos de Phantom, contra os estratosféricos Mig 25 que cruzavam Israel, acima do teto de operação da defesa aérea do país.Consistia em acelerar o avião ao máximo numa camada atmosférica onde a temperatura é constante, a tropopausa, e que no inverno situa-se a aproximadamente trinta e cinco mil pés de altura e a partir daí fazer uma subida na vertical em Mach 1, até sair momentaneamente na estratosfera, onde já se pode ver estrelas em pleno dia e até mesmo a curvatura da terra.

É claro que, sem traje apropriado, corre-se o risco de morte por choque barométrico, no caso dos motores apagarem. Talvez por isso fosse tão emocionante...

Naquela época éramos jovens e donos absolutos da noite de Porto Alegre.

A primeira vez em que fomos ao Gruta Azul, fomos também recebidos como príncipes, já que éramos convidados de Weber, uma figura fantástica, oficial especialista em comunicações e irmão da dona da boate.Toda a vez em que um novato chegava ao esquadrão, as apostas eram feitas para o desafio que Weber lançava ao recém-chegado no bar do esquadrão, em seu carregado sotaque gaúcho.

“Quer apostar que eu mordo meu olho direito?”, mandava Weber, sem piscar os enormes olhos azuis.Após a aceitação com incredulidade e sob as palmas dos demais pilotos, Weber tirava o olho de vidro e colocava inteiro na boca.“Quer apostar o dobro como eu sou capaz de morder o olho esquerdo, che?”, provocava novamente.

Certo de que Weber não poderia ter dois olhos de vidro, o novato via seu dinheiro ir embora quando ele, em meio ao total alarido do grupo de pilotos, tirava sua dentadura e mordia o olho bom.

As noites do Gruta sempre terminavam em confete, serpentina e beijos com as lindas moças descendentes de imigrantes e “louras como as espigas, os raios de sol e as moedas antigas...”.Após o breve amor matinal, lá estávamos, grande parte de nós, assistindo briefing diário, sempre precedido pela frase do Hortênsio, predileta de Cartier: “Ressaca não é doença!”.

E lá íamos nós, em meio ao minuano, levando nossas aves de rapina para a posição de decolagem.“Coruja, Pampa Azul para o retorno do Ximango.”

Após a solicitação codificada de retorno do mecânico que, coberto com um grosso poncho sobre o uniforme, armava os canhões na pista, manete para frente, póscombustão ligada e o mundo ia ficando rapidamente para trás e para baixo.

Eu havia feito um pacto com Ito, um amigo piloto de caça que servira no “catorze” e era natural de São Sebastião do Caí, pequena e bela cidade, na saída do tráfego de Canoas.

Atendendo seu pedido, sempre que decolava nos voos do início da manhã, eu fazia uma passagem rasante sobre a cidade, que imaginava ser seu ilustre filho, de lá saído jovem para ingressar na Força Aérea.

O trato funcionou tão bem que, anos depois e já tendo o encargo sido passado a diversos sucessores, o prefeito da cidade confidenciou durante uma visita ao esquadrão, que a vida funcional da cidade só começava após a passagem matutina do avião de caça.

Nos raros dias sem atividade operacional, em cumprimento a minhas funções como relações públicas do esquadrão, eu costumava pegar uma das aeronaves administrativas da Base e passar o dia na cidade serrana de Garibaldi, “supervisionando” a fabricação de um delicioso vinho varietal de uvas merlot, que tomava o nome do esquadrão.

A razão dessa homenagem era o fato de um dos filhos dos donos da vinícola ter sido piloto de caça do “catorze” e falecido em acidente aéreo na época dos Gloster Meteor, a fantástica aeronave inglesa adquirida pelo Brasil na década de cinquenta, em troca de um lote de algodão, que ajudou a sedimentar a estrutura da aviação de caça em nosso país, iniciada na segunda guerra com os valentes Thunderbolt P-47.

Nesses dias, minha chegada ao aeródromo de Garibaldi era uma festa, já que praticamente toda a diretoria da vinícola exercia também a direção do aeroclube local.

Após acrobacias e “tours de pista” com diversas personalidades da cidade, incluindo o prefeito, rumávamos para a sede da vinícola onde, após o churrasco de sempre, entretínhamo-nos entre os gigantescos tonéis a degustar as safras, em diferentes estágios de vinificação.

Antes de retornar a Canoas, no que era quase um ritual, a diretoria da vinícola comparecia em peso à sede do aeroclube para um brinde de despedida com grapa, a aguardente feita com a casca das uvas vinificadas.

Nessas horas, sempre no cair da tarde, o brinde era puxado pelo Ventania, diretor social do aeroclube, cujo apelido decorria de um voo rasante sobre um piquenique, nos tempos de juventude.

“Que nossas mulheres não morram viúvas!”, iniciava com sua voz de padre, “e que se alguém tiver que sentir a lancinante dor da viuvez”, aí já com ar de falsa consternação, “que sejamos nós, que somos mais fortes”.

Depois de “adelfis” e “à la chasses”, eu decolava com o avião batendo asas, fingindo embriaguez, e despencava-me do alto da serra em direção à pradaria sem fim.

Saudades desses tempos...No entanto, sempre que me lembro daquela época, ao fechar os olhos do presente e abrir os da memória, deparo-me inevitavelmente com a loura figura de Stela, uma das mulheres mais lindas que conheci, em pé junto a uma fogueira, sob um céu coalhado de estrelas.

O estande de ataque ao solo de S. Jerônimo ficava próximo à cidade de Butiá, pequena povoação no meio do pampa gaúcho a uma hora de voo no monomotor Universal T-25 que, como um leal cavalo crioulo era o meio de transporte do controlador. E essa função, prerrogativa dos oficiais mais novos, tinha, desde os “tempos do onça”, o estranho código “Lili”.

Ninguém sabia dizer a razão para um código tão feminino, motivo de constante chacota dos pilotos de outras unidades aéreas, prática que remontava à época do “Tigre Voador”.

Ainda era quase noite em Canoas quando o Lili decolava numa das aeronaves administrativas da Base de Canoas, para assistir ao nascer do sol sobre as coxilhas na rota de S. Jerônimo.

O incômodo paraquedas de assento, o suave ronronar do motor Lycoming, o inconfundível cheiro de gasolina e um ou outro tonneau rasante sobre um alvo de oportunidade, naquela hora de voo que nos separava do estande, ainda se alinham em minhas melhores memórias.

O pouso na pequena e corcoveada pista do estande era a primeira de um série de emoções do dia na campanha...O responsável pela manutenção das acomodações era o Cabo Argollo um velho e sorridente militar, que não negava sua descendência italiana e que morava com sua família num dos anexos da casa rústica, mas aconchegante.

Ao descer da pequena aeronave, ainda com o coração acelerado pelo invariável sufoco do pouso, encontrávamos sempre o Cabo Argollo e sua esposa, à porta da casa familiar, com uma caneca de café com leite de ordenha, ainda fumegando.Na casinha de família gaúcha do pampa, de resto como em toda outra em zona rural de nosso vasto país, tudo se passava em torno do fogão de lenha.

Exímia cozinheira, D. Laura, esposa de Argollo, fazia um arroz de carreteiro de comer rezando.Ao Lili era reservado o melhor quarto da casa, não como um militar acantonado, mas sim como um hóspede querido e tratado na melhor tradição da campanha.

Após o café, começava o controle da atividade de ataque ao solo a partir de uma torre central, volta e meia atingida pelas bombas, tiros e foguetes dos esquadrões visitantes que não conseguiam distinguir os alvos em meio ao pampa verde, que seguia até perder de vista no horizonte.

Embora quase trágicos, alguns episódios foram de certa comicidade, quando por exemplo o Peba, a bordo de um de nossos velozes Mirage III, que naquele tempo era pintado de prateado, acertou um cavalo no quintal de uma fazenda próxima. E quando fomos em missão apaziguadora indenizar um velho gaúcho capataz da fazenda, proprietário do animal, o próprio nos contou em seu sotaque sulista que desde o episódio ele andava “mais assustado que velha em canoa” e que quando via “os prateadinho no céu”, ficava “mais arisco que anão cego em bacanal”.

Proibidos de decolar de S. Jerônimo após o pôr do sol, seguíamos exaustos após a última esquadrilha do dia, para o merecido banho quente, na casa da família Argollo.

Cumprindo quase que um ritual, o “Lili” era recebido com uma caneca de caipirinha de limão galego do quintal da casa e aguardente da cidade de Arroio dos Ratos.

A água quente, obtida de uma serpentina de cobre que passava através do fogão de lenha, curava qualquer chaga e renovava o ânimo até mesmo do mais combalido dos guerreiros.

Após o jantar, sempre delicioso, Argollo e D. Laura recolhiam-se muito cedo, deixando o pobre do “Lili” entre a luz das estrelas e as sombras do lampião, vítima dos próprios pensamentos.

Naquela noite em particular, que minha memória teima em manter viva, pouco antes do jantar, Argollo informou-me que sua única filha, professora na cidade de Charqueadas, havia chegado para uma breve estadia e que dividiria a ceia conosco.

Enquanto aguardava o jantar, fui verificar o estado da equipe de graduados que, chefiada pelo carismático Sargento Roni, dividia uma costela assada à maneira gaúcha, no “fogo de chão”.

Ao aproximar-me, lá estava ela, Stela, como dizia a canção: by starlight.Nossa primeira troca de olhares foi absolutamente fulminante...

Repentinamente trespassado por aqueles olhos azuis, como mil flechas de cupido, meu coração girava no ritmo alucinante de um tonneau vertical de múltiplas voltas de F-5, como se fosse saltar de dentro do peito.

Extático, mudo e certamente com um ar aparvalhado, sequer me dei conta de que aquela Valquíria já havia se aproximado e entabulado conversação.

“Tu é o Lili?”, perguntava-me na coloquial falta de concordância típica do dialeto gaúcho onde, segundo o Tommy, plural só existe a partir de quinze unidades.

Antes que eu conseguisse balbuciar um acanhado sim, lá vinha outra pergunta: “Tu te importa que os guris toquem um pouco de música?”.

Face à minha concordância, a equipe já rapidamente produzia uma gaita, acordeão de oito foles, e iniciava o “vaneirão”, estilo típico do sul do país.

Em meio à roda de palmas, já Roni respeitosamente tirava Stela para o bailado. Um gaúcho e uma prenda, era assim desde os tempos dos maragatos...

Murmurando uma desculpa para minha falta de jeito, afastei-me para uma coxilha próxima, onde podia, sem constranger a equipe, acompanhar sentado a uma distância segura, a música, as gargalhadas, o bailado, regados é claro por generosas doses de vinho da colônia.

Fitando as estrelas, que pareciam querer cair sobre mim, cansado pela faina do dia que terminara, só me apercebi da aproximação de Stela, quando, já deitada ao lado, ofereceu-me uma caneca de vinho.

Sem maiores cerimônias, nossa conversa fluiu fácil, desde aqueles primeiros momentos, prosseguindo ininterruptamente durante o delicioso jantar.

Contou-me Stela sobre seus projetos e sonhos, que incluíam ter um dia sua própria escola. Trocamos confidências e dividimos longas risadas, à beira da lareira, na sala daquela acolhedora casa.Um beijo, inicialmente contido, cedendo instantaneamente lugar a um amor intenso, sem limitações, de dois jovens, cheios de vida e projetos, até que o cansaço trouxe o sono a nossos corpos, entrelaçados sob a coberta comum.Com a aurora veio a inevitável separação, em meio a uma torrente de promessas, como só os amantes apaixonados são capazes de trocar. E ainda hoje, após tantos anos, sou capaz de lembrar sua figura loura, num vestido branco de alcinhas, acenando durante meu voo rasante após a decolagem.

Os dias se transformaram em meses e finalmente em anos. E nessa sequência incansável de tempo (e vento, diria Érico Veríssimo) o destino cuidou de nos manter separados, a cada oportunidade perdida, por pequenos motivos, cada vez mais vãos, até que minha transferência para Fortaleza viesse definitivamente a impor uma enorme distância física entre nós.

Hoje, caminhando pela Farrapos, penso o que teria sido feito de Stela. Teria conseguido alcançar o sonho de ter sua própria escola? Difícil saber.

Os destinos das pessoas convergem, se cruzam e se afastam na vida, céleres como duas aeronaves de caça manobrando em grande altitude. E logo se transformam em pequenos pontos no azul, que terminam por desaparecer na distância, deixando como vestígio, apenas as trilhas de condensação da memória.

Fica, no entanto a enorme saudade: do tempo; das pessoas; e do melhor de nós mesmos.

Que poderá, no entanto sempre ser revisitado na lembrança de uma noite estrelada, entre as fagulhas do fogo de chão, ao som da gaita gaúcha e em meio ao pampa sem fim... 

 

Flávio Catoira Kauffman – Cel.Av. R1
Piloto de Caça - Turma de 1978


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