ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA
  
(Estória 88)

 

Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(88-1) Quando a caça descobriu Natal
(88-2) Primeira missão de formatura em F-5E
(88-3) Uma questão de estilo 

 capacete de piloto de caça

 

 Quando a caça descobriu Natal
(Estória 88-1)

 “...correndo pela pista 12 disposto a sair no braço”
“Mas foi ficando cansado e no meio do caminho já ‘tava’ mais calmo...

Numa fase em que a Força Aérea Brasileira passava a caminhar à frente da nossa Aviação Comercial, pilotar os primeiro aviões a jato doBrasil seria, para qualquer aviador, motivo de orgulho e afirmação profissional. Quem tivesse o privilégio de voar os Gloster Meteor do 1° Grupo de Aviação de Caça estaria participando do histórico salto representando pela transição da aviação à hélice para a aviação a jato.

 A notícia chegada, em futuro próximo, dos jatos para Santa Cruz viria provocar um grande “balança-galho” nos meses que antecederam o grande dia. Foi uma movimentação de “caçadores” sem precedentes, onde houve gente que até se perdeu por aí...

É difícil imaginar-se o que terá passado pelas cabeças de “caçadores” de Santa Cruz e de Porto Alegre em 1953, quando foram avisados que iriam com os P-47 para Natal e, portanto, não voariam os jatos. Eles eram os mais modernos de cada posto.

Quando ficou decidida a ativação do Esquadrão de Caça em Natal (o 2°/5°), tornou-se necessária a compra de mais aviões. Em Santa Cruz só restavam uns poucos em condições de suportar mais um ano de instrução. E 1954 seria o primeiro ano em que os aspirantes sairiam diretamente do Estágio Avançado, nos Afonsos, para solar os P-47 sem passar pelo Estágio de seleção para Pilotos de Caça, o EPSC; esperava-se um maior atrito.

Entre os capitães e tenentes já indicados para compor o 2°/5° surgiu, então, a grande esperança na compra do P-47 da série N, mais novos, e ainda, quem sabe como prêmio de consolação, que fossem designados para buscá-los nos Estados Unidos; isso já ocorrera em 1947. Outros, ainda mais sonhadores, levantavam hipóteses sobre a compra, não de P-47, mas de P-51, os Mustang que estavam fazendo muito sucesso na Guerra da Coréia; eles buscavam um estímulo para continuar na aviação à hélice voando um avião hot. E, o mais otimista de todos, já se via combatendo nos céus da Coréia, de Mustang P-51!

T-6G

No final das contas ninguém foi buscar avião na América, P-47 N...de “não”, P-51 nem “de graça” e a Guerra da Coréia acabou... Foram comprados 25 P-47 D, nossos velhos conhecidos, entregues “a domicílio” pelos americanos.

A chegada desses aviões em Santa Cruz em outubro de 1953, era esperada com grande expectativa pelos “caçadores” da casa. Todos queriam ver os americanos manobrando os 25 P-47 para o pilofe. Mas foi uma decepção geral: o que se viu foi um “bando” entrando enviezado com a pista, cada avião de um jeito, trem e flaps em baixo e nariz pra cima, carregando wing-tanks, numa atitude ideal para um estól a baixa altura.

Depois de pousos, arremetidas e “chegadas” veio uma explicação: aqueles pilotos pertenciam a um Ferry Squadron, uma unidade exclusiva para translado de aviões: eles tinham “solado” os P-47 só para entregá-los no Brasil. Realmente na fuselagem de cada avião lia-se a marca FE (de ferry).

Os “novos” P-47 foram matriculados na FAB com os números 4175 a 4199, mas nem todos seguiram para Natal. Fabricados em 1945, tinham sido revisionados numa firma particular; no Brasil alguns não resistiram a uma simples inspeção do Parque de São Paulo e foram reprovados; pelo menos um foi definitivamente condenado. As sequelas da precária revisão feita nos Estados Unidos acompanharam os demais durante a sua vida útil. Aqueles que eram a favor do yankee go home transformavam o “fato técnico” em “fato político”...

Mas os Pilotos de Caça foram ensinados a se contentar com pequenos prazeres. Em Natal estavam reservadas algumas compensações para os pilotos do P-47. Os tenentes de Santa Cruz costumavam dizer que “o Grupo, comandando dois Esquadrões, acabava atrapalhando”; em Natal não havia o Grupo, a instrução corria mais “solta”; a pista era mais longa, proporcionando mais tranquilidade aos pilotos novos e aos respectivos instrutores, que ficavam observando suas aterrissagens ao volante do jipe com rádio, com o coração batendo mais forte e; por último, uma simples válvula “borboleta” para ventilação da nacele do piloto, novidade que redimiu os pecados cometidos pela firma que revisionou os aviões. Quanta alegria por tão pouco!

Aquela bendita borboleta permitia uma entrada do ar exterior pela capota, a comando do piloto, bem ao lado da sua cabeça, proporcionando uma redução de mais de 10 graus na temperatura da nacele. Com a válvula aberta o P-47 parecia outro avião! Agora era um conforto fazer bombardeio rasante e tiro terrestre, apesar do sol escaldante de Natal, quando nos tempos de Santa Cruz, no verão, éramos levados a manter a capota semiaberta devido ao calor quase insuportável.

Quando assumi a função de Oficial de Operações do 2°/5° passei a observar, sempre que possível, o “pilofe” das esquadrilhas que regressavamdas missões: era uma das maneiras de avaliar o andamento da instrução aérea dos Aspirantes. No dia 28/07/1955, quando aguardava a aproximação de uma Esquadrilha comandada pelo tenente Mello, o Mellinho, ouvi o toque da sirene da torre de controle; era um T-6 em emergência.P-47

Não aparentando qualquer anormalidade, pousou e prosseguiu taxiando para a Base Oeste, a chamada Base Brasileira, acompanhado pelo carro contra incêndio. Daquele lado ficava o hangar da Esquadrilha de Adestramento.

Logo surgiram os P-47, executaram o “pilofe” e pousaram normalmente. Quando o número 4 da esquadrilha, na corrida após pouso, já desacelerado, cruzou uma das interseções da pista, notei que ali havia alguém de pé, gesticulando para o piloto. No inusitado acontecimento chamou minha atenção aquela figura distante que, já agora caminhava de passo acelerado na direção de nosso pátio. Foi chegando, chegando, e pelo jeito do andar vi que era o José Xavier, comandante da Esquadrilha e de Adestramento. Excelente pessoa, cioso das suas responsabilidades e meu amigo; mas tinha “o pavio curto”. Nos últimos passos na minha direção percebo que trazia a fisionomia carregada e já perto de mim denotou o seu aborrecimento, gritando ofegante:

- “Nunes! Acabei de pousar com o meu T6 sem o tubo de pitot, arrancado pelos teus aspirantes! Desci do avião e vim correndo pela pista 12 disposto a sair no braço! Mas fui ficando cansado e no meio do caminho já ‘tava’ mais calmo e só dei umas ‘bananas’ pro número 4 quando ele passou por mim...” O capitão José Xavier, tão zangado, não quisera esperar por uma condução lá na Base Oeste. Veio “de pés” na reta! E passou a contar o que acontecera com ele, mas já falando manso.

O brioso comandante estava fazendo um voo de experiência para checar o rádio-compasso do T-6 1603. A 8.000 pés de altura, pilotagem caprichada, afastava-se da Base com o NDB de Natal pela cauda. Com a cabeça enfiada dentro da nacele procurando acionar a manivela do rádio para sintonizar os 400 kc da frequência de Natal, Xavier seguia no rumo de Currais Novos, mas inadvertidamente justo na direção da área de instrução dos P-47. Sem se dar conta ele agora era “um bugre às 3 horas baixo” para a esquadrilha do Mellinho; nenhum avião passaria por ali sem ser “atacado”!

Xavier prosseguiu na sua narrativa: - “De repente uma sombra passou rápida, senti uma forte turbulência e o ponteiro do meu velocímetro caiu para zero; então olhei para fora da nacele, ainda a tempo de ver os P-47 recuperando do mergulho, dois a dois, e lá na ponta da minha asa direita o motivo da pane do velocímetro: o tubo de pitot quebrado, dobrado para baixo num ângulo de 90 graus!” O capitão Xavier nascera de novo, mas ainda não tinha consciência de sua boa sorte...

Então fomos juntos à linha de estacionamento da esquadrilha que acabara de pousar. O P-47 4186, o número 4 da esquadrilha, pilotado por um aspirante, apresentava um sulco no profundor esquerdo, quase apenas um arranhão, que se estendia da frente para trás na superfície inferior. Não restavam dúvidas sobre o toque no ar do profundor esquerdo do P-47 com a ponta do pitot do T-6, que foi atingido de cima para baixo.

O investigador do acidente concluiu que no momento do toque a ponta da asa esquerda do P-47 passou a poucos centímetros da hélice do T6 – a sombra que o Xavier percebeu, seguida pela forte turbulência que sentiu. O coronel José Xavier veio a falecer 20 anos depois quando era comandante da Base Aérea de Belém, vítima de acidente automobilístico; há pouco tempo morreu o Mellinho, dormindo.

O aspirante que sem saber o que estava acontecendo raspou seu P-47 no T-6, não viu nem sentiu; como bom ala não tirava os olhos do seu líder.

  

João Soares Nunes- Ten.-Brig.-do-Ar
Piloto de Caça - Turma de 1948
Ex-Cmt 1º GpAvCa
(extraído de “Crônicas... no Topo”)

 capacete de piloto de caça Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(88-1) Quando a caça descobriu Natal
(88-2) Primeira missão de formatura em F-5E
(88-3) Uma questão de estilo 

 

  

 
 Primeira missão de formatura em F-5E
(Estória 88-2)

 Eu estava em meu curso operacional de F-5E, no 1º GpAvCa, em 1979, quando fui acionado para uma missão... seria a minha primeira de formatura em F-5E... e lá fui eu correndo para o briefing na sala da minha esquadrilha DOUROS, no 2º Esquadrão... o líder chegou em seguida: Ten Cel Sérgio Ribeiro ‘Ribeirinho’, então comandante do Grupo... com seu tão bem conhecido jeito de tudo simplificar, foi logo dizendo ”bagrinho, a missão é simples, conforme a OI (Ordem de Instrução). Alguma dúvida?”... ao que respondi que não, ele confirmou as frequências rádio, falou rapidamente sobre partida – cheque rádio – táxi – decolagem e subida na ala – evoluções (dizendo: fique sempre na ala, com a aeronave bem compensada e será bem simples... até a minha avó faz isso... - conta corrente - descida e SURPRESA... faremos 2 passagens baixas na ala, sobre o Pátio da Embarcada pois estará havendo uma parada de despedida para o comandante do GSM, Ten Cel Ajax, meu amigo e caçador... capriche para não desapontá-lo... Vamos lá !

Um parênteses aqui: a avó do chefe Ribeirinho fazia de tudo: BP,BR, TT, TA, Interceptação, NBA, REVO, Combate e agora, até “firulas” na ala... Em seus briefings ele sempre a citava... ficara famosa aquela avó!

Pouso de um F-5E

E fomos... na sala do OPO tive mais uma surpresa... me deram o 4833 que era equipado com INS, logo com o comandante do Grupo, que frisara não poder haver atrasos... corri feito um maluco para ganhar tempo pois o alinhamento do INS levava no mínimo 5 min, e normalmente 10... bom, as coisas nunca saem direito numa situação dessas... quando já decorriam 6 min o INS deu FAULT e tive que começar tudo de novo... mas a minha corrida rendeu frutos; não atrasei... decolagem e subida na ala e eu via, pela primeira vez, a bolacha do Senta a Pua na minha frente, na cauda da aeronave do líder e vibrei com aquilo... era a bolacha que na Itália os nossos veteranos levavam sobre o Vale do Pó, em combate... e eu ali estava, sobre o Vale do Paraíba, vendo o famoso avestruz... as evoluções começaram e o líder, com sua tão conhecida finesse – competência, evoluía como se em sua ala tivesse alguém com muito mais horas na máquina do que eu... fomos para a cobrinha e a coisa foi mesmo apertada... eu não poderia ”desafinar” como os velhos Jambocks... e viemos para as nossas passagens baixas... eu grudado na ala, “mordendo” o launcher-rail do líder e ali fiquei... pilofe e pouso... eu estava bem suado mas muito mais feliz... fizera minha primeira missão de formatura na ala do KING 01, não pagara vexame e ainda fizera uma firula na despedida de um caçador, que desde os tempos da AFA eu sabia bem quem era... Missão cumprida!

Abraços grandes, aqui de Singapura, onde vim fazer meu exame médico e relaxar um pouco.
 

  

A LA CHASSE!

Marco A.“Rocky” Rocha- Ten.-Cel.
Piloto de Caça - Turma de 1976


capacete de piloto de caçaEste fascículo contém 3 (três) estórias:
(88-1) Quando a caça descobriu Natal
(88-2) Primeira missão de formatura em F-5E
(88-3) Uma questão de estilo 

 

 

 Uma questão de estilo
(Estória 88-3)

 Amigos,Não sei se a maioria tem esse hábito, mas um de meus maiores prazeres quando recebo o noticiário mensal da ABRA-PC é tentar identificar o estilo dos articulistas, antes de confirmar suas assinaturas ao final.

Essa arte não se apoia apenas no estilo de escrever, mas principalmente no modo de contar a estória, filtrado pelo estilo de vida demonstrado nas experiências anteriores de convivência, nessa ou naquela Unidade Aérea ao longo da carreira.

Sem modéstia, estou ficando especializado no assunto.

Pena saudosista, com certa melancolia que traz nos detalhes o princípio da Caça em Santa Cruz, já identifico nosso querido Brigadeiro Menezes nas primeiras linhas.

Técnica, Quírico ou Duncan, o último sempre com toques de engenhosidade e alguma mordacidade (talvez inspiração do CB. Areinha!).

História, eivada de detalhes operacionais precisos, aí vem meu antigo Comandante, PPI.

Filosófica, com passagens que trazem charadas, Tacarijú.

Estilo drop shot, curto como o Woody Allen, com um traço de humor britânico, é sem dúvida o Zega.

Um conjunto de interjeições que parecem pular em decibéis maiúsculos das páginas trai o escriba, Cel Trompowsky.

E por aí vai...

Ou seja: o estereótipo vem-me à frente do texto, tal qual impressão digital!

Para que todos possam exercitar essa capacidade, aí vai um “quiz” apoiado num fato real. Ou pelo menos, da versão que fiz dele, em meu estilo “entre o delírio e a invenção deslavada”:

A qual dos caçadores abaixo caberia essa narrativa:

Paisagem da Toscana - Itália

“Minha eterna busca pela ‘Essência da Chama do Espírito da Aviação de Caça’ levou-me na última viagem à Toscana.”

“Na Casa Biondi-Santi, sorvendo um Brunello de Montalcino safra 1944 no sopé dos montes (soto l’Apenini, siamo arrivato del fiume acá..), parece que cheguei bem perto!”

“O vinho sabia às cerejas vermelhas, groselha e cedro, e tinha ainda um sopro enfumaçado que evocava a pólvora dos canhões de nossos P-47. No ar, soprava o mesmo vento ligeiro de primavera, cantado pela bela ‘partigiana’ que abrigou o Joel Miranda.”

“Mas o ápice de minha jornada foi nesse mesmo dia ao pôr-do-sol quando, às margens do Rio Pó, pude tomar uma dose de Glenmorangie com a água do próprio rio. Nesse momento, fez-se a luz! Flashes de Gloster, TF-33, Xavantes, Mirages e Tigres, em linhas de frente, diamantes, cobrinhas e até de N°. 3 em básica sobre a Praia do Futuro, em Fortaleza. Lembrei de mim mesmo e ‘Afinal’, alcancei o Santo Graal!

“Só me restou uma frase ao motorista da limusine, que me olhava espantado: Io voglio cruzar il Pó!”

(a) Schneider

(b) Cepo

(c) Azzi

(d) Peixe Lima (A Lenda)

(e) Domingos Octavio (bem esse não é caçador, mas acha que é, e seria bem capaz de uma narrativa tão parnasiana!)

(f) Silvio Berlusconi (esse notável caçador de pererecas!)

(g) Ozias (recente promovido pelo History Channel a piloto do GAC)

Testem seu conhecimento!

Um abraço,

À la chasse!

  

Flávio Catoira Kauffman – Cel.Av. R1
Piloto de Caça - Turma de 1978


Este fascículo contém 3 (três) estórias:
(88-1) Quando a caça descobriu Natal
(88-2) Primeira missão de formatura em F-5E
(88-3) Uma questão de estilo

 

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