ESTÓRIA INFORMAL DA CAÇA
  
(Estória 89)


Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(89-1) Domando a Jamanta
(89-2) O Glamour da Aviação de Caça
capacete de piloto de caça 

 
  

  
Domando a Jamanta  
(Estória 89-1)


22 de abril, dia da Aviação de Caça.No dia 22 de abril de 1945 o 1º Grupo de Aviação de Caça realizou 11 missões em 44 surtidas, no TO italiano da II Guerra Mundial.

Seu Comandante era Nero Moura.

Foram destruídos naquele dia 97 transportes a motor (avariados 17), um parque de viaturas, imobilizados 35 veículos, 14 edifícios ocupados pelo inimigo (avariados 3), uma ponte rodoviária (avariada), uma ponte de balsas e outra ferroviária, 3 posições de artilharia (avariadas), além de um sistema de trincheiras de grande importância tática. Que dia fantástico! Razão pela qual escolhido para ser o nosso dia, o dia da Caça e do Caçador.

22 de abril de 2012. Eu ia receber a Medalha do Mérito Operacional Brigadeiro Nero Moura.

Sabendo como são distribuídas as medalhas hoje em dia, esta, particularmente, me daria um imenso prazer em receber.

05 anos no Rompe Mato, 05 no Pacau, 06 no Jaguar, 04 no programa AM-X, 01 como ChEm da VI FAe, 03 como Ch EM da III FAe. Somando tudo, 24 anos integralmente dedicados à Aviação de Caça. Eu mais que merecia essa Medalha.

Seis da manhã. Morando em Brasília, deveria estar me preparando para pegar uma carona para a Base Aérea de Santa Cruz, onde a solenidade teria lugar.

Qual o quê!

Estava na realidade arrumando uma mínima maleta e tomando a proa do Hospital do Coração do Brasil onde, no dia seguinte, um cirurgião implantaria três pontes no meu coração.

A história é curta e acho que merece ser contada, até porque não me lembro de alguém tê-lo feito.

Faço check-up cardíaco semestralmente há uns 10 anos, alternadamente com prova de esforço em esteira. Dada a ocorrência de um BRD (bloqueio de ramo direito) congênito, meu cardiologista sempre dizia que alguma coisa ficava camuflada em meus exames e que eu deveria realizar uma cintilografia sem e com esforço, seguida de tomografia. Como jamais senti qualquer dor ou desconforto no coração, fui adiando o tal procedimento até que um dia o cardiologista foi determinante:
“- Este ano você não escapa! Vá fazer a cintilografia!”.

Pé no saco, pensei, e lá fui eu. Dois dias depois apanhei o resultado.

Ainda que leigos em tal assunto, temos cultura suficiente para interpretar palavras, e uma palavra mágica (ou trágica, dependendo do viés) apareceu três vezes no relatório: isquemia, que, reduzida ao seu significado nu e cru, nada mais é do que entupimento. Li de novo para ver se a palavra sumia, mas ela teimava em ficar lá.

Tentando me recuperar da incômoda notícia, voltei ao meu cardiologista que, para melhor apreciar o quadro, mandou-me fazer um cateterismo.

E lá fui eu de novo. Tubo enfiado na virilha, subindo pela aorta abdominal até o coração, fotografando, filmando e gravando.

Meu cardiologista, de posse dos resultados de todos os exames que mandou fazer (os citados e mais uns cinco) foi direto ao assunto, sem nem tocar preparar:
“- Meu amigo, três pontes no mínimo”. E completou:
“- Quero que você faça com o cirurgião X no Hospital que ele indicar”.

Ato contínuo, agendei a consulta pré-operatória com o Dr. X.

Tentei ficar tranquilo. “Dr. X opera corações todo dia. O meu será apenas mais um. O cara é bambambam...”. Não é bem assim, mas comecei a preparar a cabeça da forma mais positiva possível, o que, à frente, se mostrou uma conduta mais que acertada.

Analisando os quilos (a essa altura deixei de contar as folhas) de exames apresentados e vendo no monitor o DVD com meu coração em (precário) funcionamento, Dr. X saiu-se com a seguinte pérola: <BR“- Alexandre, o lado direito do seu coração não funciona; o lado esquerdo tem uma ótima circulação colateral, o que tem mantido você vivo; 80% das artérias estão entupidas; ou seja, só 20% do seu coração funciona; se tiver um infarto não dará tempo de chegar no hospital; nem se ele for do lado da sua casa.”Ops, “tofu”, pensei eu.

Entretanto, com um ar complacente, Dr. X arrematou:
“- Vou consertar seu coração e lhe dar 15 anos com boa qualidade de vida”.

Do inferno ao paraíso em 10 segundos. Fiquei mais feliz que pinto em bosta!Nos dias anteriores à cirurgia entrei em dezenas de sites sobre cirurgia cardíaca e sobre o coração propriamente dito. Quando saí para o hospital entendia mais de coração que alguns... ok, deixa pra lá...

Muita coisa mudou no protocolo de implantação de pontes no coração, mas o básico permanece:
- o externo ainda é serrado de alto a baixo;
- o paciente ainda é ligado a uma CEC (máquina de Circulação Extra- Corpórea);
- o coração ainda é parado durante a cirurgia.
... sem falar no pericárdio, dupla membrana que envolve o coração e que deve ser igualmente cortado para que se alcance o dito cujo.

O que realmente mudou:
- não se fecha mais o externo com grampo, mas com fios de aço (pelo menos comigo foi assim);
- os medicamentos anti-dor estão – com certeza – cada vez mais eficazes.Uma estratégia modificada no dia da cirurgia:
- Dr. X decidiu não tirar uma mamária + duas safenas, mas sim uma mamária + uma safena + uma radial (do braço). Ele diz que a veia do braço “dura mais”. Seja lá o que isso significa, parece bem legal ter uma veia que “dura mais”.Após a cirurgia acordei na UTI com:
- um tubo enfiado pela traquéia;- mãos amarradas para não arrancar o dito tubo;
- uma costura no peito;
- uma costura no braço;
- uma costura na perna;
- um dreno saindo de dentro do abdomen da grossura de uma mangueirinha de privada;
- um pedaço de fio de aço saindo de outro buraco e ligado diretamente ao coração (para descarga elétrica, no caso de dar m...);
- um dreno saindo dali mesmo de onde você imagina;
- uma agulha na veia do pulso direito;
- uma tripa enfiada na veia sub-clava (debaixo da clavícula) onde de meia em meia hora alguém injetava alguma coisa.

Se alguém disser que tirou de letra tudo o que descrevi acima pode dizer que é mentira. O truque é manter sempre em mente que “em algum momento isso vai acabar e vai parar de doer”. O Doutor...Pessoas em volta de mim na UTI urravam de dor sem parar. Isso me incomodava mais que minhas próprias dores.

Meu cirurgião também adota (não sei se usualmente, pelo menos comigo foi assim) um procedimento que não vi nem em minhas pesquisas: após fechar tudo ele aplica uma ráquia na coluna para que o despertar seja menos traumático.

Pensando bem, eu sou a única pessoa que eu conheço que operou o coração sem jamais ter sofrido um infarto nem ter jamais sentido qualquer dor ou incômodo no peito.

Seis dias depois da cirurgia estava em casa.

Quatro semanas se passaram no momento em que escrevo este artigo. Já dá para dizer que peguei a pane!

Os meus amigos médicos devem estar morrendo de rir das impropriedades e incorreções que certamente estão aqui relatadas. Eu também acharia graça se eles começassem a escrever sobre Combate Aéreo, CCIP, REVO, parâmetros de tiro, MTOW ou Check Charlie.

O recebimento da Medalha Brigadeiro Nero Moura fica para o ano que vem.By the way, alguns amigos me perguntaram porque não usei o sistema de saúde da FAB. Isso é outra história e tema para um novo artigo, menos ameno que este (se é que é possível a ele se referir como amenidade).

Conversando com meu cardiologista entendo ser interessante trazer um assunto à baila. Anualmente, quando do Bródio dos Jaguares, é feito um sorteio para que antigos Jaguares possam fazer um voo da saudade na aeronave que equipa a UAe. Eu mesmo fui sorteado quatro vezes. Três delas roubando, senão não teria graça.

Os instrutores escalados para voar conosco se esmeram em exibir suas qualidades de piloto e a performance do avião, aí incluídas curvas sustentadas de 7G. Para quem faz isso rotineiramente, no problem. Para quem já passou dos 50, 55, e não faz isso há décadas, big problem. Coração e veias das pernas sofrem, e muito. Com consequências futuras.

Sugestão: façam um tranquilo voo panorâmico, algumas acrobacias suaves, duas passagens e pronto. “Tá” de bom tamanho!

Pensem nisso, Comandantes de todas as UAeCa, quando convidarem antigos Caçadores para voos de cortesia em suas Unidades.

Então foi me dada a chance de ficar mais algum tempo por aqui. Espero aproveitar cada segundo desse tempo.Ainda não está na hora de entrar na ala do Brig Nero Moura. Só daqui a 15 anos, no mínimo.Quase esqueci de explicar o título: pessoas que sofreram a mesma cirurgia (entre elas o Délio, o Ministro, e o Figueiredo, o PR) disseram que parecia que uma jamanta havia lhes passado por cima do peito.

A jamanta já sumiu pelas curvas da Grota Funda.

Pensando bem, nem era uma jamanta.

Quando muito uma SUV.


Alexandre Bukowitz – Cel.Av. R1
Piloto de Caça - Turma de 1968 


 Este fascículo contém 2 (duas) estórias:
(89-1) Domando a Jamanta
(89-2) O Glamour da Aviação de Caça 
 capacete de piloto de caça

 

 O Glamour da Aviação de Caça
(Estória 89-2)

 “Acuda a alma, que o corpo se lascou!!

”O brado, proferido pelo “Cavalo Marinho”, logo após aquele baque surdo, que semitonou com o batuque cadenciado do “tambor de crioula”, tirou-me bruscamente do quase transe, imposto pela coreografia do “Mateus”, meu personagem naquela Folia de Reis, num hoje longínquo dia de Janeiro, numa esquecida ruela de S. Luís do Maranhão.

À sombra das frondosas mangueiras e dos pés de cajá, em frente àquela casa avarandada em estilo português antigo, que recebera a troça, agora engrossada por quase metade da cidade, não foi difícil identificar que a baixa tinha sido o próprio “Boi Bumbá”. Farra do Boi“Meu Deus!”, lembrei-me de repente. O “Boi” era o “Véio” Almeida!!!

Desvencilhando-me do pesado manto ajaezado e, sobretudo, do enorme cabecel de lantejoulas, abri caminho por entre a súcia a alcancei a figura do Véio, tombado sem qualquer élan, no pé da escadaria. E além de tudo, com aquela ridícula fantasia de “Boi” à meia-nau.

Por força da situação, a lucidez finalmente retornava-me à mente, após dois dias e duas noites de total descompromisso...

O caso parecia sério! Olhos vidrados, corpo mole, pulso zero, a única coisa que não fazia sentido, era o sorriso de prazer e enlevo, estampado na face do Véio.Afastando duas carpideiras, que já encenavam o ofício, e recusando uma infalível “garrafada”, à base de Jurubeba Leão do Norte, oferecida pelo pároco local, iniciei por absoluto reflexo as ações paramédicas demassagem cardiovascular, apreendidas nas dinâmicas aulas ministradas briosamente pelo Dr. “Xuxureca”, naquelas modorrentas tardes do 1º/4º GAV, a “Sorbonne da Caça”, como parte do eclético currículo de líder de elemento de aviação de caça.

Aplicando-me com afinco ao salvamento, refreei-me apenas de fazer a respiração boca a boca, considerando principalmente o inevitável contato por tabela com a longa lista de “xibius”, que o Véio colecionava, nas mais baixas camadas da sociedade, desde os tempos de cadete. “Azar do Véio!”, pensei. Farra do BoiObservando que o sorriso continuava lá, escandalosamente estampado, passei a divagar, lembrando-me o momento em que decolamos de Fortaleza, na manhã de sábado, para o que prometia ser apenas mais um “bate-pronto” para completar as horas necessárias, à obtenção do cartão de voo por instrumentos.

A súbita parada de motor do T-25 na final para o pouso, a hélice em passo máximo, a emoção de alcançar a primeira laje da pista e a subsequente penosa tarefa de empurrar a “garça” pela pista de taxi inteira, ouvindo o interminável praguejar do Véio: “Há males que vêm pra f...!!!

“Cáspita! É strompata la máquina!”, diria o “Bambino”.

Após o contato com a Base Aérea de Fortaleza, soubemos que o resgate só viria na segunda-feira, o que nos condenava à inusitada perspectiva de um fim de semana em S. Luís, com apenas uma muda de roupa.Havia naquela época, à beira do Aeroporto do Tirirical, nome oficial do aeródromo, um velho prédio do tempo da Base Americana, meio engolido pela vegetação, a tal “tiririca” que dava nome ao campo, eventualmente usado como alojamento, pelos raros pilotos que por lá se aventuravam.

O guarda-campo, conhecido como “Seu Macaquicho”, era um pequeno e simpático senhor, magro e falante, que ali trabalhava desde os tempos da 2ª Guerra Mundial.

Talvez devido aos infindáveis dias de solidão, mantendo impecáveis as camas, banheiros e mosquiteiros, para hóspedes que quase nunca apareciam, “Seu Macaquicho” entregava-se sem qualquer cerimônia à prosa, toda vez que a oportunidade aterrissava.

Nessas ocasiões, desfiava um impressionante rosário de estórias sobre a enorme base de transporte americana, que contava até mesmo com balões dirigíveis, para vigilância dos comboios marítimos.

Testemunha ocular do poder e da organização de nossos aliados do norte, perdia-se nos detalhes de fantásticas narrativas de romances e maldições, entre os visitantes e o povo da ilha, sobejamente conhecido pela riqueza de suas lendas e folclore.

Nesse ponto, já tomávamos, em copos de geléia, a quinta dose de uma forte aguardente curtida num grande, vermelho e sumarento caju, que já nascera magicamente dentro da própria garrafa.“Amanhã é Dia de Reis!”, lembrou “Seu Macaquicho”.Ao convite para assistir ao ensaio da Folia, que se realizava naquela tarde, assentimos, sem pestanejar. Festa do BoiE assim, na boléia de um velho caminhão Ford, seguimos com nosso anfitrião para o local de ensaio, num modesto restaurante conhecido como “Base do Germano”, cuja maior especialidade era a caldeirada de camarão, “de comer rezando”, segundo “Seu Macaquicho”.

“Valei, que o hôme tá pissuído!!!

”Era o Véio, a essa altura completamente à vontade, fazendo “pas de deux” com uma vistosa mulata, que parecia ter as cadeiras totalmente desparafusadas. Se bem que o Véio não ficava atrás...

Num passo bamboleante, que ele insistia ser “jongo”, subia e descia incessantemente até o chão de terra batida, rodopiando que nem peru louco, ao som da cantilena.

“O meu boi morreu. O que será de mim?

Manda buscar outro maninha, lá no Piauí.

”Entronizado desde o início como maior patente militar da troça, prerrogativa anterior de um cabo do tiro de guerra da vizinha S. José do Ribamar, o Véio já mamava no bico, nesse momento, uma adocicada batida de sirigoela, feita com legítima cachaça de alambique.

É preciso, nesse ponto da prosa, falar um pouco sobre o Véio, que ganhara essa alcunha pelo fato de ser um experiente sargento da FAB aojuntar-se à nossa jovem turma de cadetes no lendário Campo dos Afonsos, onde cumprimos os exames de seleção ao Curso de Oficiais Aviadores.

Normalmente ponderado, o Véio era excepcional em tudo o que fazia. E não era pouco, pois quando nos conhecemos ele já era paraquedista e mergulhador, com diversos elogios individuais devido ao salvamento de mais de uma tripulação na Amazônia, onde integrava o Esquadrão de Busca e Salvamento.

Embora de aparência sisuda, o Véio tinha um senso de humor fantástico e, justamente por todos o acreditarem um cara sério, ele era quase sempre a pessoa certa para comandar nossos trotes.

Certa vez, eu e o Ari convencemos o médico, o mesmo “Dr. Xuxureca”, que o Véio havia sido o primeiro bebê a nascer de Parto Le Boyer na América do Sul, fruto de uma viagem de pesquisas que o tal criador do método havia feito no fim dos anos quarenta à cidade de Itapira, em São Paulo. Festa do BoiEssa técnica preconizava uma forma mais amena de se nascer: pouca luz, silêncio, sem violência, banho do bebê perto da mãe e amamentação precoce. Mas os críticos diziam que as consequências desse tipo de mudança ainda necessitariam de avaliação durante anos, para que se tivesse certeza de que não provocaria características psicológicas indesejáveis nos indivíduos nascidos dessa forma.

Convencido, Xuxureca nos pediu que não comentássemos com ninguém, nem mesmo o Véio, a quem passou a obser var detalhadamente à distância.

O Véio, por sua vez, não decepcionou. Às vezes sem qualquer motivo deitava-se em posição fetal no chão da Sala dos Pilotos, outras andava em círculos por horas a fio, no pátio do estacionamento, em meio ao breu da noite. Mas a coisa começou a engrossar quando ele procurou o médico para informar que estava tendo visões com o que imaginava ser a vagina materna, vista pelo lado de dentro.

Xuxureca ficou entusiasmadíssimo, pois tinha ao mesmo tempo um espécime adulto nascido de forma diferente e ainda, como piloto de caça, desempenhando uma função de absoluto risco. E isso, imaginava, conferia alta importância à sua pesquisa médica.

Já imaginava os aplausos da comunidade científica ao trabalho de um simples médico de esquadrão no Ceará!

Depois de passar horas a projetar imagens do teste Rorschach para que o Véio identificasse aquela que mais se aproximava de sua visão, Xuxureca descobriu que era gozação, ao ver mais da metade do esquadrão, incluindo o comandante, rindo atrás da porta de sua sala.

Outra curiosa característica do Véio era sua criteriosa argumentação todas às vezes em que outros de nós mais afoitos vinham sugerir qualquer tipo de atividade ilegal ou pouco segura, como escalar algum monumento ou pular de algum barranco, ele sempre mostrava o lado perigoso ou irregular da coisa. Mas uma vez convencido de que independente de sua opinião iríamos nos arriscar de qualquer modo, ele sempre dizia: “OK! Mas, eu vou primeiro!”. E assim foi durante toda a sua vida.

Varando a noite de sábado, o ensaio do “Bumba meu Boi” com a avant première e seguiu cidade adentro, ao som dos baiões, tambores e cocos rendados, num rebuliço itinerante pelas ladeiras da Cidade Velha, fazendo a primeira parada, já na boca do dia, às portas de uma casa nada idônea, na região do baixo meretrício.“Zona organizada, tem que ter anão!”, sentenciou o Véio, num raro momento de intervalo do batuque.

Preocupado com uma possível ofensa, preparei-me para consertar a frase, quando uma gorda senhora que gerenciava a casa, respondeu: “O senhor tem toda a razão! Bem se vê que sabe reconhecer uma casa tradicional, quando se depara”.

Após o que, voltando-se para o interior, gritou:“Chupito, aparece por aqui, lesado!”.

Surge, como que por encanto um anão, vestido de bailarina, desculpando-se pelo atraso, o que foi motivo para mais batuque e cantoria.Em nossa rápida passagem pela zona, prestigiado pela cafetina e obrigado pela circunstância da patente militar, o Véio celebrou o casamento de um marinheiro sueco com uma calipígia nativa e protagonizou um show de strip-tease. O que veio a nos render enorme prestígio e mais bebida de graça...

Farra do BoiSeguindo alegre já ao longo do domingo, a troça abordava agora as casas das famílias mais proeminentes da cidade.

“Cavalo Marinho, dança no terreiro
  
Que a dona da casa tem muito dinheiro...”

Profundamente inspirado, numa das casas o Véio declamou Gonçalves Dias, “Ainda Uma Vez Adeus”, levando às lágrimas o patriarca da família, um próspero comerciante de secos e molhados, que brindou o grupo com duas garrafas de conhaque de alcatrão.

Adiante, quando a troça ameaçou um momento de nostalgia, encetou um monólogo sobre os limites da razão, segundo Kant, que concluiu emocionadamente, com o canto do “Afinal, Afinal...”, um dos hinos da Aviação de Caça, a essa altura já incorporado ao cancioneiro maranhense.

“Vem meu boi bonito, vem cantar agora,Já deu meia-noite, já rompeu a aurora”

Tudo girava muito rápido, como num carrossel. A música, a bebida, as fantasias, as ladeiras...

De repente, ali estava eu, tentando salvar o amigo caído, que não demonstrava qualquer sinal de vida, a não ser que se pudesse considerar assim, aquele incompreensível sorriso de malária, que insistia em permanecer em seu rosto.

Assustados com o ocorrido, e sobretudo despertados para o fato incontestável de que o dia de segunda-feira já levava clara vantagem, no combate com a noite de domingo, os foliões foram pouco a pouco debandando, até que só ficamos eu, o que restou do Véio e “Seu Macaquicho”, que piedosamente, já providenciara meia dúzia de velas, segundo dizia: “para abrir os caminhos, do morto!”.

Já me imaginava voltando a Fortaleza com o Véio no pijama de madeira e, o que era pior, tentando explicar à viúva a verdadeira “causamortis”, quando percebi uma rápida mudança no semblante do “quase defunto”.

Embora ainda sem qualquer sinal vital, o sorriso incoerente foi cedendo espaço progressivamente a uma carrancuda expressão inicial de desconforto, que logo se transformou em claro descontentamento.

Até que súbita e decididamente, o Véio abriu os olhos e perguntou as horas.

Ao ouvir a resposta, pôs-se de pé e, num tom que não admitia réplicas, bradou: “Vamos para o aeroporto!”.

No trajeto de volta ao Tirirical, feito na caçamba do caminhão de bombeiros, respeitei a introspecção e o ar zangado do Véio que, a despeito dos solavancos do terreno, mantinha, como diziam os paraquedistas de resgate, “um olhar fixo no ignoto”.

Finalmente, quando decolamos de S. Luís no avião de apoio, resolveu confiar-me o motivo de seu aborrecimento.

Ao desmaiar em meio à folia, o Véio viu-se transportado para o céu por lindas Valquírias, onde ficou numa antessala, aguardando sua vez de entrar no Paraíso.

À sua frente, estava Alain Delon, que lhe confidenciou que a entrada no céu era precedida de uma penitência, a ser cumprida na próxima sala, e sempre proporcional aos atos praticados pelo candidato lá em “terra firme”. estoria89-8-boi2“Quando o Alain Delon entrou”, disse-me o Véio, “não consegui evitar a vontade de conferir pelo buraco da fechadura, o que nos esperava.

”Deitado numa grande cama de casal, sem qualquer roupa, Alain aguardava constrito uma definição, quando uma cavernosa voz fez-se ouvir, vinda do alto.“

Alain Delon, você pecou! Foi falso com os amigos, pouco trabalhou, decepcionou os que confiavam em você e, além disso, transou com as melhores mulheres do mundo. E por isso, esse será o seu castigo...

”Espichando os olhos, o Véio viu com espanto a aproximação de uma velha horrível, que entrando por outra porta, atirou-se sobre o Alain Delon, praticamente violentando o pobre ator.

Após uma rápida análise de situação, o Véio concluiu que, tendo sido um bom filho, bom amigo, bom marido, bom pai e tendo, além de tudo, levado uma vida na mais completa penúria material, como soldado de escol, piloto de caça, primeira linha de defesa da Pátria e etc., sua penitência só poderia ser maravilhosa, a julgar o que ocorrera com Alain Delon.

E assim, entregou-se completamente às delícias da espera, razão do absurdo sorriso...

Ao chamarem seu número, o Véio sequer esperou a ordem para tirar a roupa e se jogar na cama.

Com os olhos fechados, aguardava o locutor iniciar o consagrador sumário das agruras de sua vida, imaginando que apenas Marilyn Monroe, Brigitte Bardot ou a Venus de Milo de Tabatinga, uma velha paixão amazônica, poderiam ser seu prêmio.

“Subitamente”, disse-me o Véio, “abrindo um olho, eu vi uma velha mais feia do que a primeira, entrar no quarto”.

E, logo após, a cavernosa voz trovejou:“Véio Almeida, você não pecou muito e só transou com mulher feia! No entanto, tendo levado uma vida glamorosa pilotando aeronaves de caça e tendo sido objeto de inveja de diversos outros mortais, sua conta por aqui é pior que a do Alain Delon...

”Nesse momento, o Véio irritado com o glamour da aviação de caça, chamou Thor e pediu retorno à terra...

Anos depois, após longa passagem voando os Mirage do Grupo de Defesa Aérea, e já voando na EMBRAER como piloto de provas o Véio morreu, testando uma aeronave A-1 que seria entregue à FAB no dia seguinte.

Depois de sua morte, eu sempre fiquei pensando que tipo de acolhida ele teria tido na outra vida e se realmente haveria um teste de merecimento, como ritual de acesso à vida eterna.

Se houver, hoje estou certo do peso daqueles que foram os anos mais árduos e também os mais glamorosos de nossas vidas.

O Véio Almeida faz uma falta enorme, no entanto, sempre me confortou a ideia de que, sabendo que teríamos todos que enfrentar a morte cedo ou tarde, ele tenha simplesmente dito:

“OK! Mas, eu vou primeiro!”.



Flávio Catoira Kauffman- Cel R1
Piloto de Caça - Turma de 1978


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