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Se há uma categoria de profissionais que gosta de ver as coisas sempre por um novo ângulo é a nossa, de Pilotos de Caça.

Em tempos de celeridade no aparecimento de novas práticas e tecnologias, o preparo do homem deve inegavelmente ser direcionado para um pensamento dinâmico, que o prepare para enfrentar situações de crescente complexidade na guerra aérea. E é com esse pensamento que decidimos modernizar nosso boletim bimestral, o ABcaçadores vêem sob um novo ângulo...RA-PC NOTÍCIAS.

Para o jovem Caçador, da ativa, esse noticiário faz uma ponte com seus colegas, de todos os tempos, e traz muitas vezes informações que o ajudam a entender o porquê de certos hábitos e tradições. Para o antigo Caçador, já na reserva, essas páginas fazem mais do que isso. São na verdade uma ponte entre hoje e os tempos gloriosos em que, envergando orgulhosamente o uniforme de voo, cruzava os céus pela defesa da Pátria.

Com esse propósito, iniciamos o processo de migração do nosso boletim para um modelo digital, que possibilitará uma experiência multissensorial de leitura, com hipertextos e outros recursos modernos que a informática e a Internet nos permitem. Inicialmente estamos disponibilizando um exemplar digitalizado desta edição (em PDF) em nosso site (www.abra-pc.com.br), para que todos possam aquilatar as vantagens dessa nova forma de mídia. Em uma fase seguinte implementaremos os novos recursos facultados pela mídia digital, enriquecendo o ABRA-PC NOTÍCIAS com maiores volumes de informação e com a agregação de imagens dinâmicas e sons ao texto.

Para que possamos estruturar a divulgação do boletim no novo formato, solicitamos àqueles que prefiram continuar a recebê-lo na versão impressa que enviem uma mensagem eletrônica dirigida ao CADASTRO (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) ou ao FALE CONOSCO (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) mencionando essa opção. Pelo mesmo motivo, solicitamos a todos os associados atualizarem seus endereços de email através dos contatos com a ABRA-PC acima mencionados, uma vez que os mesmos serão utilizados para o acesso ao boletim digital. 

Cumpre ressaltar que somente aqueles que optarem pela versão impressa receberão a edição em papel, como de costume. Em qualquer dos casos, LIVRE MANOBRAR para críticas ou sugestões.

Senta a Pua !

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 ENDEREÇO

Praça Marechal Âncora 15-A (Prédio do INCAER)
Castelo - Rio de Janeiro - RJ - CEP 20021-200
E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Nosso expediente de secretaria é nas segundas e quartas-feiras das 9:00h às 12:00h.

(Nos demais horários deixe o seu recado "na eletrônica", ou transmita um fax, pelo telefone 21-2262-4304)  
 

  
ZEGA 14 
ZEGA 15 - Charge do PIN     
 

  

AGENDA

20 de julho Aniversário de Alberto Santos Dumont     
29 de julho Aniversário do 1o/4o GAv    
05 de agosto Aniversário da Terceira Força Aérea
07 de agosto Aniversário da Base Aérea de Natal
 10 de agosto 19º Aniversário da ABRA-PC 
21 de agosto  Aniversário da Base Aérea de Canoas 

 

Às Unidades aniversariantes os votos de ventos sempre favoráveis na realização de todas as missões.

Senta a Pua !final de artigo

 


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Coragem

 Certa vez, um jovem aprendiz perguntou a um velho guerreiro o que seria a coragem. O velho olhou nos olhos do jovem e percebeu as cores do temor. Suavemente, o velho pediu que o jovem o acompanhasse pela trilha até à montanha sagrada. Durante a caminhada, o velho perguntou se o coração do jovem batia forte.

Veteranos do GAvAvCa na ItáliaOuvindo que assim acontecia, o velho perguntou se as batidas do coração diziam algo para o jovem. Caminharam em silêncio um pouco mais e o jovem respondeu que as batidas diziam que estava vivo. O velho, então, perguntou se o jovem tinha medo de morrer. Quase chegando no sopé da montanha sagrada, o jovem, com voz embargada, disse que tinha medo de morrer.

Preito aos nossos heróis - O Grupo de Caça atual e o P-47O velho parou a caminhada e, olhando para o jovem guerreiro, perguntou-lhe se seria capaz de lutar pela montanha sagrada. O jovem olhou para a montanha e disse que seria capaz de morrer por ela. O velho, então, perguntou se ele tinha medo de morrer pela montanha sagrada. O jovem disse que, pela montanha sagrada, valia a pena lutar e morrer. O velho segurou ambas as mãos do jovem guerreiro e disse: “O nome disto é coragem”. Sem entender, o jovem respondeu que sentia medo de morrer, portanto, não parecia ser corajoso.

O velho olhou para o topo da montanha e murmurou: “Não existe coragem sem medo. A vida é preciosa. Só entregamos a nossa vida por nossa montanha sagrada”.

Dois mil anos se passaram até aquele dia em que os jovens e velhos guerreiros se reuniam, para cantar e dizer sobre morrer pela montanha sagrada, chamada, naquele tempo do amanhã, de Nação. Os guerreiros não mais montavam seus cavalos de batalha, mas sentavam-se em máquinas estranhas que, voando pelo espaço, sabiam aonde iam, avisavam de um ataque e sabiam como acertar o inimigo. Dentro daquela máquina, ainda assim, batia um coração de jovem amedrontado, que entregava sua vida pela montanha sagrada, pela sua Nação. Curiosamente, naquele tempo do futuro ainda imaginado, eram chamados de Caçadores...
Assim seja.

Tacariju – Cel Av RR
Piloto de Caça – Turma de 1967
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 Atividades da Diretoria da ABRA-PC     
 
 a. Preparação de painel de debates sobre a Educação do Oficial Combatente no Século XXI

b. Organização da viagem dos associados sorteados para a Feira de Aviação de Farnborough.

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Aniversário da ABRA-PC    

 No mês agosto, a ABRA-PC estará completando dezenove anos de existência.

Como este ano a data coincide com o Dia dos Pais, comemoraremos no dia 16 de agosto, sábado, com a realização de um almoço por adesão, para o qual contamos com a presença de todos os Caçadores da ativa e da reserva.

Anotem em suas agendas! Reservem essa data!

Almoço Comemorativo do 19º Aniversário da ABRA-PC:

Local – Clube da Aeronáutica (Sede Barra da Tijuca).
Data – 16/AGO/2014.
Hora – 12:00H
Traje – Esporte

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Aniversário da ABRA-PC


 

 

 

 

 

 


 

Demonstrativo Financeiro Resumido

 
SALDOS EM 31 DE MAIO DE 2014
 
Conta Corrente (Banco Real) R$ 28.60548 
Fundos ABRA-PC (DI-Supremo) R$ 34.22426 
Sub-total recursos ABRA-PC R$ 62.82974  

FUNDOS ESPECIAIS (*)

Desenvolv. Cult. da Av. de Caça R$ 2.45303 
Prêmio Pacau R$ 61.52141  
Sub-total dos Fundos Especiais R$ 63.97444  

MÉDIAS DE RECEITAS

Média anual R$ 13.11465  

 MÉDIAS DE DESPESAS

Custeio R$ 6.16793  
Eventuais

R$ 35340   

   

(*) A origem desses recursos deve-se à doação de cem mil reais, feita pelo Brig. Magalhães-Motta à Associação Brasileira de Pilotos de Caça.

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 Experiências Vividas

Sinal de Chamada Pacau

“Ouvindo aquelas histórias e vendo, pela primeira
vez na minha vida, homens de verdade chorarem...”


Eram 6 meses de muita vibração, de muito esforço e muita vontade de sair vencedores; estou relembrando o Estágio de Seleção para Piloto de Caça – ESPC – que em cada 1º semestre, nos anos de 1946 a 1953, na Base Aérea de Santa Cruz, preparava Aspirantes-Aviadores para solarem o P47 e prosseguirem no Curso de Caça.

Os pilotos recém chegados do 1º Grupo de Caça que combateu na Itália foram os fundadores daquela Unidade aérea pioneira, quase experimental, que se propunha a fazer do North American T6 o “caça” de transição para o P47, na falta de outro avião mais adequado. Em 1946 os aspirantes da Turma de 1945 foram os primeiros estagiários.

No dia a dia do treinamento aéreo ficou logo comprovado que o T6 suportava mergulhos de mais de 200 milhas, com recuperações de mais de 5G e que aceitava reversões partindo de curvas de grande inclinação mantidas à custa do compensador de profundidade todo “cabrado”. Mas comprovou-se também, já agora por um preço muito alto, que no voo de grupo a capota do T6 deveria ser mantida aberta, que na cobrinha de acrobacias a curva de Immelman poderia causar um engavetamento fatal e que no peel off puxado contra o sol, o piloto, ofuscado, não veria o avião que estava à sua frente.

Em março de 1948, quando fui matriculado no ESPC, a doutrina da instrução de voo já estava sedimentada. Tudo tinha sua razão de ser. A disciplina era tão rígida que parecia que a guerra não tinha acabado. O regime de internato impunha dedicação integral. E em terra, cada estagiário era responsável por uma determinada atividade; uma espécie de on-the-job training.

Quanto a mim, nunca havia usado a indumentária que me fizeram vestir para voar. Nem eu nem ninguém aqui no Brasil estava habituado a pilotar avião usando macacão cheio de bolsos com zipper, luvas de couro, capacete de lona com os fones de rádio embutidos, óculos de voo com lentes coloridas intercambiáveis e corpetes salva-vidas infláveis, amarelos, apelidados de “Mae West”, uma loura de Hollywood que tinha um busto avantajado... Quem quisesse podia ainda passar pelo almoxarifado e retirar, sob cautela, um blusão americano modelo B10 forrado até a gola com pelos de nylon, dos que tinham sido usados pelos oficiais do Grupo no inverno da Itália.

No primeiro fim de semana que se seguiu juntei numa sacola os óculos e o capacete, com fones e tudo, e levei para mostrar em casa. Quando dei o capacete, com os óculos de aviador para minha mãe segurar ela mal tocou neles, devolvendo-me assustada o que lhe parecia um símbolo da morte. Já meu velho pai fez a minha vontade: pôs os óculos, levou-os à testa e tornou a baixá-los, mirando-se no espelho do quarto com um ar de aprovação; o capacete, infelizmente, não coube na sua cabeça maranhense cheia de inteligência.

Aquela parafernália de equipamentos me atrapalhou muito nos primeiros voos em Santa Cruz. A manga do macacão agarrava em tudo; as luvas tiravam a sensibilidade das minhas mãos; o colete salva-vidas apertava o peito e a doutrina de voo do Grupo me obrigava a travar os suspensórios da cadeira do T6, na decolagem e no pouso, dando uma sensação de falta de ar justamente nessa hora, quando eu precisava respirar fundo...

Para complicar mais as coisas havia que obedecer um código para as comunicações pelo rádio. A Torre de Controle era – ainda é até hoje – PRIMAV, sigla do antigo 1º Regimento de Aviação; a perna base do circuito de tráfego do aeródromo era o INICIAL; e o sinal de chamada dos pilotos dos T6 do ESPC era PACAU. O Nosso comandante era o PACAU 01; eu era o PACAU 36.

O treinamento de voo, rigorosamente padronizado, buscava nivelar a proficiência dos Estagiários de forma a assegurar um eficiente emprego operacional do P 47 que viria em seguida. Por isso a seleção no ESPC começava no primeiro voo no T6. Nem todos conseguiam chegar até lá.

Meu primeiro voo foi com o Mauricio Seidl, para verificação das acrobacias que eu não teria conseguido aprender na Escola dos Afonsos. Numa manhã de céu azul, a 7 mil pés sobre a Restinga da Marambaia, procurei fazer todas as manobras e acrobacias que meu instrutor, o tenente Márcio Paes Barreto, me ensinara quando eu era cadete; tentei até o difícil stick-back-stall, que os companheiros lifeboy tinham aprendido nos Estados Unidos: manche colado à barriga, o T6 estolava, mantendo-se as asas niveladas usando apenas os pedais do leme de direção.

Mas o exigente Seidl deve ter achado que ainda faltava alguma coisa – “Faz agora um loop com um tonneaux rápido no topo”, gritou ele pelo interfone, com determinação.

Rapidamente mentalizei que o T6 teria que percorrer um círculo no céu, vertical como uma roda de bicicleta, e lá em cima, bem no topo, dar um giro rápido e completo com as asas antes de prosseguir na metade descendente daquela roda imaginária. E, na hora, me veio à cabeça o colega de ESPC que, no dia anterior, também sendo checado em acrobacias, deixara o motor do T6 parar ao passar pelo dorso, fazendo uma Immelman, o que provocou uma explosão no escapamento, gerando uma enorme labareda que lambeu a nacele, chamuscando-lhe os lábios e tostando seus vastos bigodes, que cultivava com vaidade desde que saíra da Escola de Aeronáutica. Cena tragicômica...

Escolhi como pontos de referência o Morro da Marambaia na proa e a Pedra da Gávea na cauda. No mergulho necessário para atingir 190 milhas de velocidade, ser a linha da Restinga; na puxada do Manche para iniciar a parte ascendente da acrobacia ela desapareceu debaixo do avião e no parabrisas, então começaram a desfilar novas imagens correndo rápidas de cima para baixo: o Morro da Marambaia, a Ilha Grande ao longe, o azul do céu, nuvens, agora o sol, mais céu, e enfim a esperada silhueta da Pedra da Gávea, “pendurada” no horizonte de cabeça pra baixo. Com 90 milhas no velocímetro chegou a hora do tudo ou nada... Pedal esquerdo a fundo – quase um coice – e manche na virilha esquerda – com raiva! O T6 girou violento, como eu esperava; numa fração de segundo vi o horizonte rodar, na certeza de que logo a Pedra da Gávea ia reaparecer no mesmo lugar; nesse instante, então, outro “coice”, agora no pedal oposto, e manche no joelho direito! Lá estava a Pedra, de novo, imóvel na posição invertida, bem no meio do parabrisas. Daí foi só deixar o T6 iniciar suavemente a saída do loop com a ajuda da força da gravidade. Até ressurgir na proa a figura familiar do Morro da Marambaia.

Tudo deu certo. Eu nunca tinha feito um “rápido” no topo do loop... A voz do Seidl voltou no interfone para ordenar nosso regresso à Base, sem qualquer outro comentário; era uma lição que vinha da Guerra: não estimular o individualismo nos novos pilotos...

O regime de internato do ESPC transformava a Base de Santa Cruz em um “campus” onde se estudava e praticava Aviação de Caça. Numa rotina pouco comum, as atividades começavam antes do nascer do sol e não tinham hora pra terminar. À noite eram programadas aulas teóricas e provas dos diversos sistemas do P47, no C.I.T (Centro de Instrução Técnica) para a formação de mecânicos do P47. Quando isso não acontecia, tinha sempre um Instrutor no Cassino de Oficiais estimulando um “papo” de endoutrinamento para Piloto de Caça; o Estagiário saía dali direto para a cama morto de sono. Era outra lição da Guerra: ao futuro combatente não se pode dar tempo para pensar...Hangar do Zeppelin - BASC

Por isso, os Aspirantes daqueles anos tiveram o privilégio de ouvir histórias memoráveis, contadas pelos personagens que as viveram nos céus da Itália. Eram relatos impressionantes de bombardeios de depósitos de gasolina, de ataques de pontes, locomotivas e viaturas, e até do metralhar de simples carroças, que aparentavam inocência mas voavam pelos ares sob o fogo das “ponto 50” dos P47, com a explosão da munição que, disfarçadamente, transportavam. E também historias tristes, dos companheiros abatidos pela antiaérea, dos quais só souberam notícias quando a Guerra acabou: alguns não tinham sobrevivido. Ouvindo essas histórias eu estava vendo, pela primeira vez na minha vida, homens de verdade chorarem.

Naquela Base Aérea, a 50km a oeste do Rio, respirava-se um ar diferente; o clima parecia outro; o estagiário pegava o trem na cidade, debaixo de chuva, e chegava em Santa Cruz com o céu claro, para a frustração daquele que embarcou falando alto: “Pessoal! Hoje não tem perigo de voo!” De fato, o dia parecia mais azul e a noite parecia mais escura. Diziam até que o hangar do Zeppelin era mal-assombrado na escuridão, onde as corujas assustavam os recrutas de plantão.

O Estagiário Magalhães C.B.M, destemido Aspirante da minha turma, dispôs-se a enfrentar os fantasmas do hangar na calada da noite, incumbido pelos colegas de vasculhar os arquivos do ESPC para saber os graus que vinham recebendo nas Fichas de Voo. Voltou em clima de festa com uma notícia boa e outra ruim: “O hangar não é mal-assombrado, tanto que o sentinela estava dormindo... Mas, as fichas, nem pensar: trancadas a sete chaves”. Mentiroso!

Todos os dias do exaustivo expediente atenuava-se a pressão sobre os estagiários; o corneteiro era dispensado, mas uma rede de alto-falantes propagava pela Base o som de um toca-discos que reproduzia os toques de arriamento da Bandeira, de revista do Recolher, Silêncio às 22 horas e de Alvorada, gravados num disco. Desgastado pelo uso, aquele velho disco punha a Base acordada aos primeiros chiados da agulha antes da gravação da corneta começar. Em compensação havia, também, música ambiental...

Punham para tocar os “Vi-disc” que o Grupo de Caça trouxera da Itália. Eram discos inquebráveis de 78rpm, 12 polegadas, que o governo Norteamericano distribui para todas as Forças Aliadas que operavam no além mar. Eram os chamados “discos da vitória”, cujos exemplares que ainda existem são altamente valorizados por colecionadores. À tardinha ouvia-se em toda Base a orquestra dos irmãos Dorsey tocando “I’m getting sentimental over you”, alternando-se com Glaude Thornhill, que parecia expressar o sentimento do combatente, longe da sua amada, no refrão romântico:

- “While you’re away, while you are waiting for

Para que tudo aquilo funcionasse, o Oficial de Dia tinha que dar uma de disc-jockey. E o padre capelão também; às 18 horas ele rodava o disco da Ave-Maria e aproveitava para dirigir palavras de fé à guarnição de serviços; essas palavras criavam um dilema na cabeça de Estagiários empenhados em partidas de vôlei contra os instrutores, jogadas sempre no final do dia: concentrar-se no jogo ou nas palavras do pastor? De que lado estava o pecado? Aquelas partidas de vôlei faziam parte das atividades programadas para aliviar as tensões acumuladas durante o estressante dia dos Estagiários.

Em 1946, já no pôr do sol do dia 25 de Maio, a atenção dos jogadores na quadra de vôlei voltou-se para dois P47 que aproximavam-se para executar o “pilofe” em velocidade aparentemente excessiva para aquela manobra. Era o tenente Lara, no 4106, o A4, com seu ala,o Aspirante Lucas de Barros Bastos; regressando de uma missão de treinamento; o Lara “pilofou” com bastante vigor, soltando densos rastros de condensação de ar das pontas das asas, o que fez pararem o jogo; o Lucas, como seria de se esperar, mal conseguiu acompanhá-lo; o hangar do Zeppelin, porém, cobriu a visão daquela reduzida plateia que por isso não pôde acompanhar o restante daquela “puxada” extremamente hot; o jogo já poderia prosseguir.

Entretanto, a experiência do instrutor que ia dar o “saque”, prevaleceu; ele sentiu que “aquilo” não iria acabar bem e, ao invés de “sacar” o tenente José Henrique Teixeira de Araújo – esse é o seu nome – com a bola em uma das mãos e com a outra mão fazendo uma concha na orelha, falou alto e claro, pausadamente:

- “Ou-ça-mos o barulho...” E, todos ouviram... - “Buum...”

Era o 4106 estatelando-se na cabeceira da pista 22, no final do “pilofe”. O tenente Lara, chegado há um ano da Campanha da Itália, saiu do A4 caminhando com o macacão de voo meio chamuscado pelo fogo que já envolvia os destroços, embarcou na ambulância de sobreaviso que logo chegou e... ninguém viu... Para quem chegou perto do avião completamente em chamas, o Lara estaria lá dentro...

Enquanto isso, o Aspirante Lucas circulava com o seu P47 sobre a pista interditada, lamentando a “morte” do seu Instrutor, e vendo a noite chegar, preocupado em localizar o interruptor do farol de aterragem no painel do seu avião, pois nunca voara noturno de P47!

O acidente do Lara tornou-se um “clássico” nos conselhos que os instrutores davam aos estagiários de todas as turmas que se sucederam.

BASC - tempos de P-47Aquele não teria sido nem o “primeiro nem o último” avião de caça a cair no “pilofe”; à baixa altura para quem tentasse fechar demais a curva para o pouso, com trem e flaps baixados, no mínimo, quebraria o P47. Ou , como dizia o capitão Keller:

- “No pilofe não se coloque numa posição difícil, para não ter que lutar para sair dela vivo!”

No lusco-fusco daquela tarde de Maio de 46, foi o que aconteceu com o tenente Lara: o Leon Roussoliéres Lara de Araújo, herói do 1° Grupo de Caça.

Com o passar do tempo vieram outras lições. Fiquei sabendo que o estande para tiro ar-solo, o Limatão, atualmente já desativado, recebera esse nome como uma homenagem ao tenente Pedro de Lima Mendes, instrutor vitimado em acidente no primeiro ESPC, em 1946. O mesmo aconteceu com o tenente Diomar Menezes, instrutor, também naquele
ano: o seu nome foi escolhido para o estande de Tiros de Armas Portáteis.

Um grupo de Instrutores, tendo às mãos apenas um manual do US Army Air-to-ground gunnery e muita determinação, escolheu o local para os estandes, fez as medições no terreno, demarcou o traçado das linhas e das posições, e supervisionou a implantação daquelas duas praças de tiros indispensáveis para o treinamento dos estagiários.

Fiquei sabendo, também, e aprendi participando, que nós estagiários e instrutores, deveríamos estender o balizamento luminoso de emergência ao longo dos 1.500 metros da pista quando chegasse a fase de voo noturno. Enfim, havia muito trabalho para todos, veteranos ou novatos, instrutores ou estagiários. Mas, quem eram essas pessoas? Quem eram uns, quem eram os outros? Como juntavam-se gerações distantes e conseguiam fazer com que elas se entendessem?

Lá em Santa Cruz, Pilotos de Guerra, que fazia pouco tempo, duelavam seus P47 com posições de artilharia antiaérea – a Flak de 40mm alemã – sendo que alguns deles haviam sido libertados de campos de prisioneiros de guerra há menos de um ano, passaram a conviver dia e noite com jovens e inexperientes pilotos. Era o início da formação de novas gerações de Pilotos de Caça brasileiros, que iriam aprender as técnicas do combate, desde o comportamento em terra até a manobra mais eficaz em voo, ensinadas pelos próprios idealistas que nos levaram à vitória nos céus da Itália.

Outros mais, herdeiros da responsabilidade de manter viva a corrente de profissionalismo e idealismo iniciada em Santa Cruz, estão presentes em todos os setores da FAB, onde agora, ninguém mais voa sem colete salva-vidas, sem luvas, sem capacete protetor...enfim sem doutrina de voo.
Guerreiros de verdade e guerreiros em potencial trabalharam juntos e se entenderam, aprimorando o instinto belicoso, inerente à espécie humana, que cada um de nós traz dentro de si; cada geração com o seu destino de ir ou não para a guerra...

Daqui a pouco o Veterano da 2° Guerra será um monumento à História do Brasil; nós outros uma simples lápide; mas o espírito, a mística e até mesmo o imponderável que caracterizam o “caçador” que descende do brasiliano aviatore, ficarão para sempre na história da Aeronáutica Brasileira.
 

João Soares Nunes – Ten Brig Ar
Piloto de Caça – Turma de 1948
Ex-Cmte 1º GpAvCa
(extraído de “Crônicas... no Topo”)
final de artigo

 

 

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