Esquadrão Joker - 11k

Esquadrão Flecha - 6k

titulo abra100  

 

 titulo mensagem diretoria


 

 

Nobres amigos, prezados caçadores.

Este nosso boletim de notícias é muito especial, haja vista ele ser o de número 100!

Para registrar este momento histórico, contamos nesta edição com as palavras do Ten Brig Saito, Comandante da Aeronáutica, Ten Brig Baptista, Ten Brig Burnier e Maj Brig Menezes, 1º presidente da ABRAPC, Oficiais-Generais que forjaram gerações de pilotos de caça por seu elevado padrão profissional, exemplos e atitudes, e aos quais agradecemos pela atenção e pelas mensagens de incentivo.

Desde o nosso primeiro boletim, editado em outubro de 1997 e cuja cópia temos a honra de encaminhar junto com este, muita carga G já foi puxada neste nosso espaço aéreo, companheiros foram perdidos ao longo do caminho, nossos últimos veteranos de guerra nos deixaram, mas a chama acesa jamais se apagou, mesmo nos momentos mais difíceis.

E é por isso que temos hoje um rico acervo que retrata a nossa aviação de caça ao longo do tempo, apresentada sob a ótica daqueles que a fazem ser a melhor dentre as melhores, nossos pilotos. São estórias, depoimentos, opiniões, fotos e charges que contam do nosso dia a dia e das nossas aspirações, muitas delas captadas pelos traços de artista do Cel Duncan, que deram vida ao saudoso CB Areinha.

É uma conquista de todos nós, caçadores, que, com suas valiosas contribuições e críticas possibilitam o aprimoramento continuado do nosso boletim. Brig. Nero Moura

Muito mais do que o simples número redondo, atingir essa expressiva marca com o mesmo entusiasmo e vigor das primeiras edições evidencia a importância desse trabalho para a Aviação de Caça, edificado pela abnegação, persistência e amor à Aviação de Caça que os pioneiros da Associação mantiveram ao longo de nossa história.

Que ele possa continuar a ser o traço de união que nos une a todos em torno de um mesmo ideal: o amor à Pátria, o amor à Força Aérea e à Aviação de Caça, independente do código rádio que cada um orgulhosamente utiliza em sua missão!

Estamos todos de parabéns! 

 
Senta a Pua!


ENDEREÇO

Praça Marechal Âncora 15-A (Prédio do INCAER)
Castelo - Rio de Janeiro - RJ - CEP 20021-200
E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Nosso expediente de secretaria é nas segundas e quartas-feiras das 9:00h às 12:00h.

(Nos demais horários deixe o seu recado "na eletrônica", ou transmita um fax, pelo telefone 21-2262-4304)  
 

ZEGA 10
  

   Centésima edição do ABRA-PC Notícias! Nossa homenagem aos veteranos do 1º GpAvCa 


  AGENDA

 

05 de outubro
Picadinho “Jesus está chamando” na sede da Barra
15 de outubro
Aniversário da Base Aérea de Santa Maria
23 de outubro
Dia do Aviador
24 de outubro
Aniversário da Base Aérea de Santa Cruz
30 de outubro
Aniversário da Base Aérea de Boa Vista
31 de outubro
Aniversário da Base Aérea de Porto Velho
07 de novembro
Aniversário do 1º/16º GAv
10 de novembro
Aniversário do 1º/10º GAv e do 3º/10º GAv
18 de dezembro
Aniversário do 1º GAvCa

 

Às unidades aniversariantes os votos de ventos sempre favoráveis na realização de todas as missões.

Às Bases Aéreas votos de sucesso continuado e nossos agradecimentos pelo inestimável apoio às unidades de caça sediadas. 

 Senta a Pua !final de artigo

 


titulo editorial

  

PALAVRAS DO COMANDANTE DA AERONÁUTICA 

                                                                                                                                                                         

                                                                                                                                                         Brasília, 01 de setembro de 2013.

 TB Juniti Saito - CMTAER

AO PARTICIPAR, HONROSAMENTE, DE UM MARCO DOUTRINÁRIO DA ENVERGADURA DESTA CENTÉSIMA EDIÇÃO DO BOLETIM PERIÓDICO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PILOTOS DE CAÇA – A VIBRANTE ABRA-PC – VEJO-ME VOLTANDO NO TEMPO, REENCONTRANDO A VALOROSA ROTINA OPERACIONAL, A VULTOSA FORÇA QUE IMPULSIONOU UM JOVEM FILHO DE IMIGRANTES JAPONESES A INGRESSAR NA FORÇA AÉREA BRASILEIRA.

NESSES MOMENTOS, VÊM À MEMÓRIA O MARCANTE ODOR DO QUEROSENE, O PUJANTE RONCAR DOS MOTORES, O FRENÉTICO MOVIMENTO NOS PÁTIOS E A ABSOLUTA DEDICAÇÃO DE NOSSOS PILOTOS E MECÂNICOS.

TAIS ATRIBUTOS EMBALAM O CORAÇÃO DE CADA CAÇADOR, MANTENDO ACESA A CENTELHA DE ESPERANÇA NUM PORVIR VIRTUOSO PARA A SETA DE SUPREMACIA AÉREA.

PARA TANTO, ESSE PROMISSOR FUTURO DEVE ZELAR PELA PREMISSA DE QUE A PROJEÇÃO DO PODER AEROESPACIAL NÃO ADVÉM APENAS DE VETORES AÉREOS CONCEBIDOS COM A TECNOLOGIA DO ESTADO DA ARTE, MAS ESTÁ ATRELADA, PRINCIPALMENTE, À MOTIVAÇÃO DOS HOMENS QUE DÃO VIDA A ESSAS AERONAVES, À CONSISTÊNCIA DE SUA DOUTRINA OPERACIONAL E SUA INCONTESTE PRONTIDÃO.

ASSIM, AO EVIDENCIARMOS A NECESSÁRIA E SINÉRGICA UNIÃO ENTRE HOMEM E MÁQUINA, CONSTATAMOS QUE UM PAÍS, COM AS DIMENSÕES SUPERLATIVAS DO BRASIL, REQUER UM INQUESTIONÁVEL VIGOR TECNOLÓGICO, CONSOLIDADO EM MEIOS AÉREOS À ALTURA DO PAPEL BRASILEIRO NA DENSA CONJUNTURA GEOPOLÍTICA ATUAL.

COM ESSE PENSAMENTO, A FORÇA AÉREA TEM NORTEADO TODO O SEU REAPARELHAMENTO NAS ÚLTIMAS DÉCADAS, BALIZANDO-SE NESSE CONCEITO PARA CONDUZIR CRITERIOSAMENTE O PROJETO FX-2, PEÇA FUNDAMENTAL PARA O INCREMENTO DO PODER AEROESPACIAL NACIONAL.

AO MANTERMOS COMPLETAMENTE ATIVAS AS INICIATIVAS PARA A RENOVAÇÃO DA ATUAL FROTA DE MIRAGE 2000, VISAMOS, ACIMA DE TUDO, COMPATIBILIZAR O ATUAL CENÁRIO ÀS INEGÁVEIS COMPETÊNCIA E BRAVURA HERDADAS DOS HERÓIS QUE VIVENCIARAM AS AGRURAS DO COMBATE NOS CÉUS DO VELHO MUNDO.

GUARDO INEQUÍVOCO ORGULHO E PROFUNDA TRANQUILIDADE AO VISLUMBRAR COMO A TECNOLOGIA DESEJADA ENCONTRARÁ AERONAVEGANTES CUIDADOSAMENTE TALHADOS PARA A INOVAÇÃO, APTOS A EMPREGÁ-LA EM SUA PLENITUDE, UNINDO PASSADO E FUTURO, MUNIDOS DA TRADIÇÃO E TECNOLOGIA EM PROL DA GARANTIA DO BEM-ESTAR E DA SEGURANÇA DO POVO BRASILEIRO.

NO ENSEJO DESSA SINGELA CONTRIBUIÇÃO PARA O HISTÓRICO Nº 100, RECONHEÇO OS INCONTESTES ESFORÇOSDESSA BRILHANTE ASSOCIAÇÃO EM SEDIMENTAR, AO LONGO DE MAIS DE 18 ANOS, A CRISTALINA CONVICÇÃO DE QUE A AVIAÇÃO DE CAÇA MANTÊM-SE DIGNA DE SEU PASSADO DE GLÓRIAS, SEMPRE CONFIANTE NUM PRESENTE DE MODERNIDADE, POIS, UNIDOS, SOMOS TODOS RESPONSÁVEIS POR MANTER VIVO O VERDADEIRO ESPÍRITO COMBATENTE DA NOSSA FORÇA AÉREA BRASILEIRA!

A la Chasse!

 
Tenente Brigadeiro do Ar JUNITI SAITO
Comandante da Aeronáutica
Piloto de Caça de 1966

final de artigo

  

 


 

PALAVRAS DO MAJOR BRIGADEIRO LAURO NEY MENEZES

 MB Lauro Ney Menezes - Piloto de caça de 1948

Alertado por nosso Presidente, custei a conter a satisfação e surpresa ao dar-me conta da passagem dos dezoito anos de fundação da ABRA-PC e, princ i pal mente, da vinda à luz do Nº 100 do nosso querido BOLETIM, através do qual extravasamos ideias, estórias, reverenciamos o passado e, principalmente, nossos LÍDERES, MESTRES e MITOS. Atingimos, assim, nossa maioridade com extrema dedicação e entusiasmo e nos auto elegemos cuidadores de nossas tradições e propagadores de nossa fé. E guia inconteste para nortear nosso profissionalismo de soldados do-ar.

Permito-me, neste momento, reportar ao tempo passado quando, ao criar a ABRA-PC, buscávamos definições para justificar (?) sua implantação. Lançamos à nossa pena, o repto de definir, com o máximo de exatidão, nosso métier, a AVIAÇÃO de CAÇA e – importante tarefa – caracterizar seus HOMENS. Encargo que exigiu sensibilidade e certeza. Passados esses dezoito anos e, na oportunidade que o momento se apresenta, continuo totalmente afeito à veracidade dessas definições, confirmadas desde o Vale do Pó até os rincões da Amazônia, e dignos de ser repetidos. Eternamente.

  O ESPÍRITO DE CAÇA: TODA SUA RAZÃO DE SER...

Analisando e vivendo por tão longo tempo a Estrutura e a Organização da AVIAÇÃO DE CAÇA e seus Membros Componentes, não temo em concluir que qualquer agrupamento de homens em torno de um mesmo ideal exige tradições, praxes, técnicas de arrazoado específicas, formas características de comunicação, de entendimento e, além disso, de ontologia própria. E tudo gira em torno da ENTIDADE que somos e da UNICIDADE que temos.

Essas ENTIDADE e UNICIDADE são, na realidade, a parte primeira do ESPÍRITO DE CORPO. Do mesmo modo que não existe patriotismo sem identidade nacional, não é possível criar a adesão emotiva entre os elementos de qualquer segmento social se esse grupo não  for tido e entendido, por ele próprio, como uma realidade distinta das outras e, portanto, merecedora de sacrifícios pessoais.

 Na busca da sustentação do ESPÍRITO DE CAÇA, o primeiro passo a ser dado é reforçar permanentemente a identidade desse grupo social e criar, nos elementos que o compõem, não só o conhecimento como o reconhecimento dessa IDENTIDADE, assim como a convicção de que ela merece – de alguma forma – a dedicação pessoal, o respeito e a apreciação. Sustentando a UNICIDADE imprescindível.

 Ou seja, ter o

 ORGULHO DE PERTENCER À CAÇA.

O PILOTO DE CAÇA 

O Piloto de Caça tem certas características que lhes dão uma identidade individual distinta. O Piloto de Caça ideal se dedica inteiramente a tudo que faz: tem sempre uma atitude mental positiva; mostra entusiasmo e, com ele, contagia os que o cercam; acredita que sua tarefa deva ser realizada acertadamente e de uma só vez, na primeira tentativa. Dedica-se profundamente a ser o melhor em tudo o que faz. E espera que todos ajam da mesma forma.

O Piloto de Caça procura ser um perito em sua especialidade, sempre buscando novos conhecimentos e novas experiências. Dedica-se a alargar sua cultura profissional, não se conformando em permanecer em domínio intelectual estreito. Tem uma profunda confiança em si mesmo e orgulho de tudo que realiza. Trabalha muito, mas desfruta bastante; sempre um competidor em ambas as atividades. Quando se defronta com um problema, sempre apresenta uma solução: jamais se omite. Embora raciocine de forma individualista, jamais deixa de buscar aconselhamento daqueles que podem conduzi-lo à resposta correta da questão. 

O PILOTO DE CAÇA representa o mais puro dos combatentes individuais, Mestre e Navegador de um dos mais perfeitos e complexos produtos da moderna era industrial-militar.

O Homem-de-Armas de hoje é, cada vez mais, conduzido para se tornar um técnico, um engenheiro subordinado às conquistas tecnológicas e à mecanização da moderna guerra aérea. Mas a ciência não deve se tornar um fim em si só. Somente um espírito ofensivo, abrigado em um coração destemido, trará sucesso a qualquer avião de Caça do mundo, independentemente de quanto desenvolvido seja.

 Nós não somos melhores ou piores:

SOMOS DIFERENTES!!!
 

Major Brigadeiro Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça de 1948

final de artigo 

  


  

PALAVRAS DO TENENTE BRIGADEIRO CARLOS DE ALMEIDA BAPTISTA

  TB Baptista - Piloto de Caça de 1955

Esta minha “estória” tem início em 1945. Aos 13 (treze) anos de idade, aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro, acompanhava, com muita ansiedade, o desenro lar da 2ª Guerra Mundial, especialmente a participação do 1º Grupo de Aviação de Caça que tinha em seu efetivo um amigo da minha família, frequentador assíduo dos saraus  e arrasta-pés que ocorriam em nossa casa, às sextas-feiras, dia de folga do patriarca – meu saudoso pai. De repente, o Sargento Mario Rodrigues se ausentou e fomos saber que ele havia partido  p ara a guerra. Guerra? Que guerra? Aí, então, passei a acompanhar os noticiários atrás de informações sobre aquele Grupo no qual, certamente, o Mario estaria tendo papel  importante na derrota dos nazifascistas.

Terminado o conflito na Europa chega a notícia sobre o retorno da FEB, com o Mário sobrevivente e incólume.

Fui para a Avenida Rio Branco, sozinho, perdido entre milhões de pessoas que a superpovoavam, desde a Praça Mauá até a Cinelândia, trajeto por onde os heróis desfilariam, recebendo as homenagens da população reconhecida. Gente, eu vi! Uma apoteose! Acho que me postei num local bem privilegiado, porque quando surgiu o Escalão de Apoio do Grupo Senta a Pua, a pé ou na boleia de caminhões, aconteceu o famoso rasante dos P47, ocasião em que somente o líder Nero Moura ficou acima da altura do Edifício da Noite, o mais alto do Rio de Janeiro. Tentei sinalizar para o Mário, mas a multidão não permitiu o contato. Naquele momento surgiu minha voca ção. Vou entrar para a Força Aérea e vou querer ser Caçador nesse Grupo! Penso que DEUS estava de olho naquele guri, talvez o único que estivesse tendo esse desejo, pois me permitiu entrar para a FAB e não só integrar, mas a suprema honra de comandar os Jambocks.

Permitiu-me, ainda mais, conviver estreitamente, e por toda a vida, com quase todos os veteranos da Itália, especialmente com a maioria dos seus mitos.

O primeiro deles foi Motta Paes, então chefe da Divisão de Voo da Escola de Aeronáutica. Foi quando comecei a perceber, com tristeza, como a Força fazia questão de esconder seus heróis. Não compreendia como um ex-combatente, abatido pela antiaérea alemã e feito prisioneiro de guerra se apresentava tão anonimamente no Ninho das Águias. Este mito foi um dos grandes responsáveis pela minha longa e bem sucedida carreira na FAB. Eu conto:

Faltava um mês para o aspirantado e escalaram-me para um voo noturno, de T6. Logo onde? Sobre o Méier e o Engenho de Dentro, cujo centro geográfico fica na Chave de Ouro, meu reinado. Uma noite de lua cheia, céu dos mais claros e estrelados, o capeta se instalou em mim. Tudo começou com um barril em volta da lua. De repente, acordo com uma voz chamando pelo avião, mandando-me retornar imediatamente ao campo. Um instrutor, residente na área, havia telefonado para a Escola e “apimentado” a notícia do que estava acontecendo no espaço aéreo sobrejacente, perturbando, inclusive, a inauguração do Cinema Imperator. Resultado: ameaça de desligamento e fim do sonho de ser um Jambock.

Ao final, Motta Paes, também pressionado por instrutores, concordou em baixar para prisão e permitir minha ida para Natal, onde o “tijolo voador” estaria a minha disposição.

Muitos anos mais tarde, num picadinho na casa do patrono, tive a oportunidade de referir-lhe o fato, augurando que ele não estivesse arrependido da benevolência a mim conferida. Lembro-me bem do seu sorriso de boca fechada e do seu famoso mutismo, mas vi nos seus olhos que até então eu passava na avaliação.

Selecionado para a Caça cheguei no 2º/5º GAV, em Natal, junto com mais 32 (trinta e dois) candidatos. Os demais aspirantes foram classificados na Aviação de Bombardeio, com B25, a metade no 1º/5º GAV, em Natal, a outra metade no 1º/4º GAV, em Fortaleza. Havia passados apenas 10 (dez) anos do final da guerra e eu tinha a felicidade de ainda sentir os fluidos do trampolim da vitória, não só na Base como na cidade, cercado de carinho e estima da sua população.

Então, conheci outro mito: o Horácio Monteiro Machado, Comandante do Esquadrão. Que figura! Era dono de uma cultura geral e especializada que muito me impressionava. No cumprimento do Programa de Instrução Terrestre, todos os instrutores encarregados de ministrar as aulas nele previstas sabiam e até penso que ansiavam para ouvir suas complementações. Era um líder no ar e no solo. Ficou famosa sua participação no casamento do Teodósio, pelas “brincadeiras” que apronto na recepção dos noivos. Acho que foi a partir daí que se tornou tradicional tumultuar os casamentos que se seguiram. Pensando bem, o que fiz no casamento do Saito com a Vera, quando no 1º/14º, foi uma cópia do que acontecera com o Teodósio.

Ao final do Curso, encerrado no dia 10 de novembro de 1955, deram-me um T6 e outro ao Montandon, no dia seguinte, para mantermo-nos “aquecidos”.

O capeta baixou, novamente. Com uma pretendida namorada na cidade resolvi fazer algumas passagens na  escola onde estudava, ignorando que nesse dia ocorriam agitações no Rio de Janeiro, Capital Federal, absolutamente desconhecidas pelos jovens aspirantes. Havia uma combinação entre Forças de que aeronave baixa sobre a cidade significava retorno imediato aos quartéis, inclusive doentes e licenciados, da reserva e reformados.

Quando chegamos ao campo vejo, na frente do Esquadrão, um enorme grupo, fardados e à paisana, até em cadeira de rodas, e vejo o Comandante Horácio caminhar até nós, subir na asa do meu T6 e ordenar: "Recolham-se ao alojamento, presos e desligados da Caça.”. A entrega do diploma aconteceu no dia 15 seguinte, eu e o Montandon não recebemos o diploma e não constamos da fotografia oficial.

Mais uma vez Deus interferiu. Meu sonho não podia acabar daquela forma. Sei que Horácio, também aconselhado pelos instrutores, resolveu dar-nos nova chance, mandando-me para Santa Cruz e Montandon para Canoas. Talvez tenha influído um fato que muito me marcou. Um belo dia, após a chamada das 08 horas, com a escala colocada no quadro, na qual eu deveria fazer um combate individual com determinado instrutor, o Horácio sobe a plataforma, tira a placa do instrutor que ia fazer a missão comigo, coloca a dele e diz para mim qualquer coisa como “quero ver se você merece as boas notas que tem recebido”. Depois vim a saber, pelos instrutores amigos, que minhas notas e as do Montandon eram bastante boas. Não fiz feio no combate, o que me trouxe muita confiança para o futuro.

Fui encontrar o Brig Horácio ao assumir o Comando da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, em Cumbica. Ele era, então, Presidente da Infraero. Antes de dirigir-me ao auditório para receber o comando do amigo Murillo Santos, tive uma conversa muita pródiga com o Horácio que, em determinado momento, perguntou-me: “Carlos (ainda me chamava pelo nome de guerra de Aspirante), quais são seus planos para o comando?”.

“Bem, Brigadeiro, ligado à área operacional durante tantos anos, penso em contribuir para enriquecer o Curso de Tática Aérea, já que o de Aperfeiçoamento considero estar bem programado.”

E aí, o Horácio disse uma frase que provocou uma grande mudança naquela escola e na educação militar profissional dos aviadores: “mas, Carlos, ainda existe Curso de Tática aqui na EAOAR?”. Cristalizei! Em mais alguns minutos ele demonstrou o absurdo de se ministrar tal curso no momento em que os aviadores já estariam saindo da Unidade Aérea, no posto de Capitão. Esse foi o fator preponderante para a decisão posterior de se levar o Curso de Tática para o GITE, em Natal, da forma como está atualmente.

Santa Cruz, 1956, chego, finalmente, ao 1º Gp Av Ca, onde servi até final de 1958, após o que fui transferido para o 1º/4ª GAV, Fortaleza, para cumprir a grata tarefa de selecionar novos caçadores.

Em Santa Cruz, encontrei três mitos. O primeiro, o Lafayete, Comandante da Base; o segundo, num reencontro, o Motta Paes, seu Subcomandante; o terceiro, o Keller, Comandante do Grupo. Olha, que trio! Cercados por gente da melhor qualidade, chefes e líderes que marcaram por demais minha convivência nesses 3 (três) anos.

Aguiar, no Primeirão, com Lopão de Operações; Binzão, no Segundão, com Marion de Operações; Gadelha como Operações do Grupo. Gente, eu servi com esse pessoal!

Vou parar por aqui, nesta edição especial, para não engrossar demais o noticiário.

Voltarei a contar sobre este tempo e sobre os demais, onde pela antiguidade e pela passagem no Comando do Grupo tive a felicidade de conhecer bem os nossos HERÓIS, especialmente o PATRONO NERO MOURA.

Antes, porém, preciso esclarecer que acho alguma justificativa para as indisciplinas aéreas que cometi, em razão de viver um tempo de proezas e arrojos a todo o momento observados nos audazes pilotos que viviam romanticamente a aventura aérea sem fadigômetros, gráficos de performance, etc. Na Chave de Ouro morava em frente à casa do Cel Med Edgard de Melo, irmão do intrépido Melo Maluco. Quase todas as manhãs me deliciava com as suas “piruetas”, exatamente na nossa vertical, especialmente com as suas “folhas secas”. Passar em baixo do viaduto de Quintino? Foi verdade! Determinado dia ecoa a notícia de que algum piloto tinha se acidentado perto da serra. Nos meus 13 anos de idade corro para lá e chego a tempo de sentir a causa da tragédia. No rasante, o Cadete não viu o fio de alta tensão. Retirei dos destroços uma lasca da asa e guardei juventude, hoje, é muito mais responsável do que fomos outrora.

Voltarei, se me permitirem, mas exorto os demais caçadores a contribuírem com suas aventuras vividas com os Mitos, especialmente aqueles que foram por eles formados logo depois da guerra.

Parabenizo a ABRA-PC por esta edição especial do noticiário. Cumprimento muito caloroso àqueles que se dedicam a mantê-lo cada vez mais gostoso de ser lido.

 

Tenente Brigadeiro do Ar Carlos Baptista
Piloto de Caça de 1955

final de artigo

 

 


 

PALAVRAS DO TENENTE BRIGADEIRO GILBERTO ANTONIO SABOYA BURNIER

   

Caçadores de Ontem e Hoje

TB Burnier - Piloto de Caça de 1972
Desde que me formei Caçador em dezembro de 1972, no Esquadrão Pacau em Fortaleza, comecei a ouvir o anseio de todos os Caçadores mais antigos, que se resumia em: QUEREMOS UM COMANDO DE CAÇA! 

Lembrem-se que naquela época só existia o 1º GpAvCa na BASC, o 1º/4º GAV na BAFZ e o 1º/ 14º GAV na BACO. Eram somente 3 Esquadrões, bem diferente dos 11 que temos hoje (por enquanto).

Durante as décadas de 70 e 80 esse anseio foi se tornando realidade com a criação do COMDA, NuCOMDABRA, VI FAE e, finalmente, a III FAE. Nós Caçadores a partir de então, tínhamos um Comando que se preocupava com a nossa Aviação.

Todavia, como somos um grupo de Guerreiros que sempre estamos criando novidades, se atualizando, gerando necessidades e sempre aprendendo mais, ficamos ressentidos, ainda, por não termos um instrumento que nos unisse ainda mais, que nos transmitisse os ensinamentos, as histórias, os depoimentos, as músicas, os “causos” e, mais uma vez, servisse de exemplo para todos os demais aviadores militares da FAB, de outras aviações.

Nas TAC´s e RAC´s conversávamos muito a respeito, mas o dia a dia das UAE impedia que conseguíssemos levar em frente algumas das ideias debatidas e acertadas, isso falando do pessoal da ativa da década de 90.

Foi nesse ambiente e devido a sensibilidade ímpar de alguns dos nossos valorosos mais antigos Caçadores da reserva, autênticos discípulos de nosso patrono Brig Ar Nero Moura, é que nasceu e foi ativada em agosto de 1995 a nossa ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PILOTOS DE CAÇA (ABRA-PC).

Nesses dezoito anos de existência a nossa associação fez muito mais do que imaginávamos para atingir todas as metas estipuladas. Dentre esses feitos, destacamos os boletins periódicos, que nos atualizam, alegram e instruem, com vários artigos espetaculares, dignos dos Caçadores brasileiros. Nesta edição atingimos o boletim periódico número 100, marca indelével de esforço, dedicação, carinho e amor ao que se faz, de todos aqueles que compõem e já compuseram a diretoria da ABRA-PC. A eles o meu preito de reconhecimento pela excelência do trabalho realizado. Os Senhores nos orgulham pelas suas capacidades profissionais, pelo altruísmo de suas atitudes e pela dedicação à AVIAÇÃO DE CAÇA!!!

 

Ten Brig Ar Gilberto Antonio Saboya Burnier
Piloto de Caça de 1972

final de artigo
 
  

 
Demonstrativo Financeiro Resumido
 
SALDOS EM 31 DE AGOSTO DE 2013
 
Conta Corrente (Banco Real) R$ 3.35280
Fundos ABRA-PC (DI-Supremo) R$ 59.38114
Sub-total recursos ABRA-PC R$ 62.73394

FUNDOS ESPECIAIS (*)

Desenvolv. Cult. da Av. de Caça R$ 2.34245
Prêmio Pacau R$ 58.48234
Sub-total dos Fundos Especiais R$ 60.82479

MÉDIAS DE RECEITAS DE 2013

Média anual R$ 10.92554

 MÉDIAS DE DESPESAS DE 2013

Custeio R$ 5.18915
Eventuais R$ 2.78685

   

(*) A origem desses recursos deve-se à doação de cem mil reais, feita pelo Brig. Magalhães-Motta à Associação Brasileira de Pilotos de Caça.

final de artigo

 


  armasemfuneral MB Miranda Corrêa - Veterano do Grupo de Caça    

 

Por ocasião do falecimento do Major Brigadeiro José Carlos de Miranda Corrêa,
nosso último veterano de guerra, recebemos as seguintes mensagens.

 

Mensagem eletrônica recebida 1

Ao amigo que parte
com tristeza nos olhos
aqui fica a saudade
dos comandados saudosos.
 Do espírito de jovem
das estrelas no peito
dos exemplos perfeitos
e do quanto é capaz.
 Sentiremos a sua falta
e dos ensinamentos também
dos uniformes impecáveis
e não há quem os tem.
 Até breve amigo
pois aqui estaremos
com o peito aberto e
os olhos serenos.
 A palavra sincera
do homem da Caça
que vibra com raça
com tudo o que faz.
Seguiremos seguros
pelo caminho indicado
voaremos de dia
ou com o céu estrelado.

Maj Brig L. N. Menezes
Pif Paf 32, Jambock d’Ouros,
Pacau de Copas, Pacau Ás de Trunfos
final de artigo
 
 
 
 

Mensagem eletrônica recebida 2

A VIDA passa mesmo muito rápido.

Tenentes, em um passado não muito distante, tornaram-se heróis.

Escreveram uma bela história e emolduraram a formação e a conduta dos pilotos de combate de toda uma geração.

Hoje, a saga desses pilotos toma uma nova proa com a partida do nosso último veterano do Primeiro Grupo de Caça.

Não os teremos mais em nossas reuniões, ximbocas, 22 de Abril, no Picadinho, e em tantos outros momentos que desfrutávamos de suas companhias e das histórias que nos contavam.

Agora, todos eles juntos novamente: Nero, Danilo, ... Meirinha, Rui e Miranda Corrêa, como no início da história do “Senta a Pua”.

A vida passa muito rápido mesmo. Ficamos nós por aqui com a responsabilidade pelo legado que nos foi deixado.

Temos um compromisso para com os nossos tenentes de hoje e estes para com os nossos tenentes de amanhã.

Um ADELPHI aos nossos bravos veteranos que formados agora, como no início, em voo de grupo, nos acenam indicando o norte que devemos seguir.

 

Senta a Pua!

Maj Brig Antonio Carlos Moretti Bermudez
JG 117, AD 49 e SABRE 01
 

  final de artigo 

  


 

Mensagem eletrônica recebida 3

 

2013

Primeiro foi o mais novo
Meirinha, o “Garoto”
Para mim era “imortal”
Sempre jovem, de cabeça e de ideais
Morreu como viveu,
sem problemas, alto astral
simples na vida como na morte,
na Semana Santa se foi
sem sofrimento, que sorte!

Por último foi-se o Miranda,MB Miranda Corrêa
Correia completava o nome
Calado, fechado, era pouco,
Circunspecto, inteligente
Poucas palavras, brilhante
Conduzia o S2 com sabedoria
E além do mais era elegante.
Tirava do piloto informações
Que nem o próprio sabia...

Em seguida foi-se o Rui
Guerreiro a vida inteira,
Polêmico, entusiasta e brigão
Nunca pediu arrego
Peitava tudo, cabeça boa,
Macho alfa, sem dúvida, sem medo,
Em tudo que fazia, entrava de coração.
Certo ou errado, dane-se:
“Sempre fui assim, quem não gostar, vai embora.
Três maravalhos prá São Quiricalho,
Pois não vou mudar agora...”

  

Foram-se os últimos guerreiros,
Não tinham medo algum
Estamos órfãos de líderes verdadeiros
Em poucos meses não sobrou nenhum,
Pilotos de Guerra, homens da luta...
A Caça chora a grande perda
Que ano mais filho da puta!

 

Cel R1 Reinaldo Peixe Lima
Piloto de Caça – Turma de 1969
Pacau, Jambock e Jaguar

final de artigo

 



PARA REFLETIR

Um Pensamento
Um pensamento...

final de artigo   


  
DEPOIMENTO

Extrato de entrevistas dos Veteranos de Guerra para o documentário “Senta a Pua”  

  

Brigadeiro Newton Neiva de Figueiredo

 

Os alvos mais difíceis

“As posições de artilharia antiaérea eram normalmente os alvos mais difíceis porque eram justamente aqueles que queriam nos abater. Atacar um depósito de munição era uma coisa inerte queBrig Newton Neiva Figueiredo estava no chão, parada. Era um risco muito maior para o piloto somente, caso um depósito desses explodisse na nossa frente, mas em termos de risco antiaéreo atacar uma posição de artilharia era muito mais perigoso. Eram eles que estavam nos atacando e se defendendo dos nossos ataques, fosse de foguete, fosse de metralhadora. Havia uma técnica especial para esse tipo de ataque, de preferência por ‘fora de cauda’, porque em certos ataques, por exemplo em um comboio, eles sempre se protegiam junto a obstáculos altos que dificultassem o nosso ataque. Eram torres de olaria, arvoredo ao longo de estradas, linhas de alta tensão, elementos que muitas vezes não víamos do ar, e se eles ficassem embaixo nós estávamos arriscados a bater nos fios de alta tensão, porque nesses ataques nós íamos bem baixo, bem baixo mesmo. Então, eles procuravam se proteger, dificultando nossos ataques, e isso é humano. Sol de calda para nós – porque eles ficavam ofuscados pelo sol – era a tática que nós usávamos, e eles tinham também que se contrapor a isso. Houve um caso de um companheiro nosso, o Canário, que naquele afã de atingir o caminhão que estava próximo a uma olaria bateu com a asa na recuperação em uma chaminé, que por ser super resistente arrancou mais de um metro de asa dele. Apesar disso ele recuperou o avião, que quase caiu, e retornou até a base e pousou. Esse é um exemplo da ‘robustez’ do avião. Tivemos outros casos também de um avião com o Perdigão que, numa decolagem, bateu num poste de trem elétrico que ficava logo na cabeceira da pista. Ele com todo aquele peso de bomba, foguete, metralhadora, bateu e largou a bomba do lado que bateu, retornou e pousou. A asa ficou intacta, mas o poste entrou até a longarina, que é um verdadeiro ‘trilho de estrada de ferro’, e aguentou tudo. Do contrário o Perdigão teria caído numa situação desfavorável, porque estando decolando cheio de explosivos, com bombas, foguetes e o resto, seria provável que aquilo tudo explodisse também.”
 

A missão mais memorável

“Eu não diria que tive uma missão mais memorável, eu diria mais ‘marcante’, que deixou marcas mais profundas. Foi quando vi um ala meu morrer, porque uma coisa é ser abatido e a pessoa saltar de paraquedas e outra coisa é você ver a pessoa bater no chão. Nós estávamos atacando uma área grande de depósito de munições, e para se ter uma ideia de grandeza era uma área descampada, de quinhentos por quinhentos metros, onde existiam várias cabanas meio enterradas no solo. Eles cobriam a munição com palhoças para parecer que eram cabanas, e cada um de nós mergulhava e atacava uma palhoça dessas, que era na verdade um depósito de munição. Nem sempre o depósito explodia na hora, porque muitas vezes – com as perfurantes incendiárias, perfurantes traçante – o explosivo dentro da coisa explodia dois, três segundos mais tarde. Eu ataquei um depósito desses e na recuperação fiquei olhando para trás para ver o meu ala, que era o Tenente Santos, que mergulhou no depósito ao lado. O meu alvo não explodiu nessa hora, mas outros explodiram bem quando o Santos entrou no mergulho dele e ‘deu no gatilho’. Na mesma hora surgiu aquela ‘bombinha atômica’ na frente dele, e por estar enterrada, a munição só podia explodir para cima. Então sai aquela língua de fogo com aquele cogumelo, e ele entrou nesse cogumelo com o avião dele, não pôde desviar porque tinha dado esse tiro a 200-300 metros do depósito, não tinha como escapar. E eu presenciei tudo, quando ele saiu daquela bola de fogo imaginase a que temperatura... eu não sei nem se ele já não estava morto. Se não tivesse morrido deveria estar completamente transtornado, porque o fogo era tanto, a temperatura tão alta, que quando saiu dessa bola de fogo a asa direita dele se desprendeu como se fosse uma folha de papel. Aí o avião entrou no dorso e veio até bater, ricocheteou no chão e foi cair mais adiante. O resto eu só pude saber mais tarde, depois de terminada a guerra, quando eu fui ao Norte da Itália numa expedição para o território inimigo recolher pilotos que tivessem saltado de paraquedas, ou pilotos que tivessem morrido. No meu caso eu ia buscar o Capitão Joel Miranda, o corpo do Tenente Santos e o Tenente Brandini, que havia saltado e estava na minha esquadrilha.”

“Quando eu cheguei lá para buscar o corpo do Santos eu me dirigi ao prefeito e fui muito bem atendido por ele, que me deu todo o apoio. Foi também lá que eu pude constatar que o Santos, antes do avião bater, havia saltado do avião. Ele caiu uns 200 metros antes do avião bater no chão no primeiro ricochete, e na segunda batida é que o avião explodiu e fez uma cratera do tamanho de uma sala. Mas ele saltou antes, ou caiu do avião, uma dessas duas coisas. Ele conseguiu abrir o canopi porque estava de dorso baixo, cerca de 15 metros de altura, e deve ter morrido na queda ou talvez já estivesse completamente desacordado com a temperatura, talvez até cego. Eu constatei nessa oportunidade que os alemães não enterraram o Santos, eles estenderam o corpo e cobriram com pedras. O Santos morreu no dia 13 de abril de 1945, e isso do que estou falando se passou dia 04, 05 de maio, mais de vinte dias depois. Os alemães puseram uma cruz, que eu trouxe e está hoje na Base Aérea de Santa Cruz, com a placa de bronze contendo os dados que ele tinha no dog tag, aquela identificação que nós tínhamos no peito. Eram duas chapinhas: uma ia para a Cruz Vermelha e a outra ficava no corpo. E eles puseram lá, então: “Tenente Santos”. Puseram até a data que ele tomou a vacina antitetânica, ‘T-44’, que era a data da vacina.”

“A situação do Santos foi diferente porque até na guerra existia ética. E o Santos não foi abatido, coitado, ele morreu numa explosão que ele mesmo provocou, e os alemães respeitaram isso. Veja o respeito que houve da parte dos alemães para com o brasileiro, para com um soldado combatente. Na realidade o soldado alemão era um soldado especial, era um soldado com ‘S’ maiúsculo, diferente de outros. Naquela época havia respeito, havia ética, havia obediência à Convenção de Genebra, que é a convenção que regula o comportamento das tropas durante uma guerra, e essas posições todas eram respeitadas pelos soldados alemães.”

O pouso famoso

“Dentre tantas missões houve uma outra que também me marcou. Normalmente depois de um bombardeio você saía à busca de objetivos de oportunidade, fosse em comboios, trens, tropas, qualquer coisa além do objetivo principal que já havia sido atacado. Nesse dia meu objetivo de oportunidade era um comboio, e eu quase bati no chão durante a recuperação. A essa altura eu já era ‘macaco velho’ e não havia porque ter acontecido aquilo. Eu cheguei a deixar na estrada de barro aquele rodamoinho de tão baixo que eu fiquei. Aí eu chamei um companheiro para ver se havia alguma coisa com o meu avião e ele disse: ‘Puxa, você está com uma bomba pendurada!’. Durante um bombardeio o piloto não vê as próprias bombas caírem, é o de trás quem está enxergando. Na recuperação eu via as bombas daquele que estava na minha frente, mas não as minhas, e foi o excesso de peso da bomba que tinha ficado presa na minha asa o motivo pelo qual eu quase bati. Essa bomba ficou pendurada pelo gancho traseiro, somente com a espoleta ativa, e eu chamei o controle. Eles mandaram que eu fosse para cima da água que os barcos já estavam indo para lá, para a área ‘B’; eu me recordo bem porque o nosso mapa era todo quadriculado com áreas bem definidas. Disseram então que eu fosse para a área ‘B’, que os barcos estavam indo para lá para me resgatar. No local designado eu fiz de tudo para essa bomba cair: dei estol, piruetas, e ela presa, firme. Num rasgo de pouca inteligência resolvi que iria pousar com ela, até hoje não sei se foi amor ao avião que já me havia trazido tantas vezes de volta incólume, mas eu vim e pousei. A bomba ficou quase raspando no chão, uns 30 centímetros do solo, e eu taxiei. Quando eu cheguei no estacionamento foi um pavor, todo mundo fugindo porque viram o avião com a espoleta ativa e a bomba pendurada. Logo em seguida veio o pessoal e desarmou a bomba, ficando tudo seguro novamente, mas hoje, em sã consciência, eu reconheço que ninguém deve fazer uma coisa dessas.”
“Estava por casualidade o General Comandante da 22ª Força Aerotática, que mandou me chamar e disse: ‘Foi o senhor o piloto que pousou com aquela bomba pendurada na asa?’. Eu disse: ‘Foi, sim senhor’. Ele então complementou: ‘Em primeiro lugar os meus cumprimentos pela sua coragem. Em segundo lugar (de dedo em riste), nunca mais faça uma coisa dessas, porque aviões iguais a esse que o senhor salvou nós fazemos trinta por dia, e um piloto experiente de guerra demora três anos para estar pronto. Então nunca mais repita uma coisa dessas!’. E ele tinha toda a razão, foi um rasgo de pouca inteligência, como eu mesmo classifico. Hoje eu acho graça.”

final de artigo
 

 


 

 

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